segunda-feira, 22 de abril de 2013

OURO DE TODOS


OURO DE TOLO

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...
Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...
Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado...
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...
Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...
É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...
E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...
Ah!
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...


    O verso inicial anafórico  “Eu devia...” poderia ser usado ad eternum ou ad nauseam neste rap avant la lettre.  Esta canção, entre muitas, faz parte de uma estética do desagradável (Com a boca escancarada/cheia de dentes/ esperando a morte chegar), que, ainda hoje, é mal vista. A colônia prefere a versão holiudiana das perdas e danos , o shopping center das hipocrisias, com a etiqueta fashion das roupas do lado de fora. Os atiradores de plantão miram os raulzitos e oferecem ácido, já que a vida aqui é tão sweet, tão sweet home, honey moon.
    Em 89, Raul deu a mão a Leminski e saltaram da ponte. Qualquer semelhança é mera coincidência.  Na hora h, a turma para e você salta sozinho sem paraquedas. Boa viagem, cowboy fora da lei! Heróis morrem dis-traídos.
    A preferência pelo conteúdo espontâneo talvez seja um pouco adolescente, o que talvez (também) explique o interesse dos adolescentes de décadas diferentes por sua obra. De qualquer forma (sem trocadilho), é um conteúdo necessário, para desafinar o coro dos contentes (?). Sorria, você está na Barra. E como pesa.
     Versos como: “E você ainda acredita/Que é um doutor/Padre ou policial/Que está contribuindo/Com sua parte/Para o nosso belo/Quadro social” fazem o desmascaramento de um sociedade sem alternativa (com trocadilho). A juventude hightech tem mais e mais aparelhos sofisticados para dizer algo, só não tem o que dizer. E por isto tagarelam tanto, para que e silêncio-espelho não reflita o vazio. Ideologia eu quero uma para viver. O fim da história? Deixe de história, o tempo não para.
   A turma do outro bairro, com seus cães amestrados, seu cartões corporativos, seu corporativismo social. Aos demais, a lei. Nada como a velha opinião formada sobre tudo. Câmaras de vigilância e radares espalhados  pelos quatro cantos das salas com porcelanato de primeira.
     Best seller, blockbuster, Buster Keaton, tudo me apavora. Mantenha o escritório clean, o apartamento clean, que o serviço sujo será feito pela firma tercerizada. E os pastores do reino lavam as almas a preços módicos.
    Mas o senhor Seixas não quis ser salvo. O que era realidade? O que era cidade cenográfica da Globo? Ele devia estar contente por ser resgatado pelo Domingão, só que não estava. Eles querem mesmo é cantar iê-iê-iê.
       É proibido alimentar os animais. Se não entendeu, Tente outra vez.



Marcus Vinicius Quiroga 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O VIOLÃO DE LEONARD COHEN







É tarde, Leonard
Todas as notas já se foram. A porta do bar
está baixa, mas ainda
                                 entreaberta
Me ofereço um trago
                               a esta hora
e imagino violinos
                          ao redor
A canção nos escapa entre cordas







Um sax interrompe ontem,
Leonard
Um lance de azar não abolirá
                                             o ocaso
Os dedos exaustos
                executam uma espécie de lamento
No entanto, não há uma gota de sangue
em cada partitura
Já que a ironia desfez
           as pistas, as impressões digitais,
lembranças
                    se dependuram
                                             no ar





Leonard,
como se escreve uma carta
que aparentemente não
       diga nada?
De que sombra surge seu sobretudo
com flocos de neve
                   e versos saindo do bolso?

Mas não vejo o destinatário
                       e o eu do remetente é outro







Não olhe para trás agora
O tempo apagou o rasto,
amarelou as palavras da senha,
rasgou o desenho
                           do mapa
Nesta plataforma vazia
                              em alguma ponto da Europa,
suponha nas mãos só moedas
                              de outra época







Fios se tecem,
repetem antigas tapeçarias,
que não serão postas nas paredes
Os fragmentos
se acumulam nos dias
e nem sempre formam um mosaico legível

Leonard,
o que não se explica no discurso
segue
como se fosse ou não fosse absurdo




Leonard,
talvez não seja sensato,
mas façamos um acordo
(que importa qual de nós já esteja morto?)

O tempo bate a porta
                      e tranca
as entrelinhas em um envelope

Mais um trago,
                      mas que seja o último

A máquina de escrever
o violão
ou o sobretudo
                        às vezes podem ser úteis


          Marcus Vinicius Quiroga