sábado, 28 de abril de 2012


LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO



Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
Carlos Drummond de Andrade


     Neste poema, Drummond usa a técnica da oposição.  Todos os fatos expostos têm a finalidade de levar o leitor ao último verso. E, ao dizer, que havia jardins e manhãs naquele tempo, na verdade, ele quer dizer que não há mais jardins e manhãs nos dias de hoje, De uma caso particular, Clara, o poema vai ao universal (o mundo inteiro, A  Alemanha, a China, tudo era tranquilo em redor de Clara.) e os fatos simples  como ter medo de gripe, calor e insetos podem ser lidos como medo de perigos maiores, coletivos, e não só individuais.

     Prestemos atenção de que é não sobre Clara que o poema fala, mas de um mundo em que acontecimentos pequenos e cotidianos, idealizados pelas cores (verde, dourado, azul, róseo, alaranjado), dão lugar a um mundo do qual o leitor não sabe nada, senão que “jardins’ e “manhãs” desapareceram. Podemos interpretar estas duas palavras de várias maneiras, uma vez que estão impregnadas pelo simbólico.

    De qualquer forma, o texto fala de ausências e faltas, sejam elas quais forem. Trata-se de uma crítica ao momento (em que foi escrito e/ou publicado), em que – repetimos – o verbo no pretérito imperfeito quer se referir ao presente. Temos, portanto, uma oposição temporal.

    Esta técnica de dizer indiretamente algo foi muito usada em tempos repressores para burlar a censura mais rigorosa, ou, com intenção irônica, para deixar que o leitor conclua sem muita dificuldade o que o autor sugeriu.





Marcus Vinicius Quiroga

      

sábado, 21 de abril de 2012




SACRO LAVORO

as mãos que escrevem isto
um dia iam ser de sacerdote
transformando o pão e o vinho forte
na carne e sangue de cristo

hoje transformam palavras
num misto entre o óbvio e o nunca visto

                                                                          Paulo Leminski

   Aproveitando a deixa de Leminski, pensemos o “óbvio e o nunca visto”. Há muito já ouvimos o impasse da arte no fim do século XX. Repetimos que tudo já foi feito e que não há possibilidade de inovações, no entanto os artistas persistem, sinal de que no fundo ainda acreditam em, de repente, não mais que repente, criar algo verdadeiramente novo.


    Enquanto não surge um Picasso, uma obra que desloque a visão do mundo, vejamos que cabe ao poeta usar o material já existente de uma forma diferente. E talvez isto seja originalidade. Insistimos: original talvez seja combinar de um modo particular os recursos poéticos disponíveis no momento.

    Em sã consciência, ninguém pode dizer que temos uma poesia legitimamente nova, nem a que é feita pelos autores mais jovens. Vemos que somos todos do século XX e que este século ainda é uma continuação, sem indícios de rupturas profundas, como ocorreram há 100 anos.

     O próprio Leminski é um exemplo. Herdeiro das ditas vanguardas de 50 e 60, retoma o verso, valorizando a camada sonora das palavras, realizando só em parte o princípio concretista do poema verbovoco- visual; adiciona o humor, o trocadilho, o jogo de palavras; mantém a reflexão metalinguística; prima pela concisão discursiva, sem cair no texto monossilábico, e oferece uma obra que, principalmente depois de sua morte, exerceu forte influência em alguns escritores.

     O título de um de seus livros  - “Distraídos - , venceremos” no qual ecoa o lema “unidos, venceremos” serve para mostrar que, fazendo uso de uma referência ao óbvio de nosso repertório (o lema políticos), ele introduz uma rima (distraídos) que desfaz o pensamento inicial e a lógica, pois não esperamos que os distraídos (e, sim, os atentos) vençam.

      Leminki sabia que o “nunca visto”, ou seja, 100% de informação nova, afasta totalmente a comunicação e ele, como letrista também, reconhecia a necessidade do contato com o leitor de forma mais rápida e eficiente. Não nos esqueçamos de que o grau de comunicabilidade de um texto depende sempre da relação entre redundância e informação nova.  Se muito redundante, não precisaria ter sido feito; se completamente novo, torna-se hermético e não é compreendido. A arte exige que (com perdão da velha imagem) andemos no fio da navalha.          


Marcus Vinicius Quiroga







          

segunda-feira, 16 de abril de 2012

VIVER, VERBO INTRANSITIVO

Exercício

Corrija a postura.

Dose a carga.

Varie os movimentos.

Concentre-se na execução.

Mantenha o ritmo. (Se preferir, acelere.)

Alongue a curiosidade.

Flexione as demandas.

Evite as certezas.

Cuide das lesões.

Aumente a resistência.

Contraia o pranto.

Repita o riso.

Fortaleça o espírito.

Supere a dor.

Melhore o desempenho.

Insista. Persista. Não desista.

Respire sonhos, desejos, fantasias.

Relaxe, descanse e comece tudo de novo.

A vida é uma grande academia. Viver, o inevitável exercício.

Estela Menezes

Um texto alegórico usa várias palavras da mesma área semântica metaforicamente. E difere da utilização de palavras que tenham relação de significado, sem, no entanto, terem sentido conotativo. No segundo caso, teríamos apenas a intensificação de uma área de significação.

No poema de Estela Menezes a palavra “academia” no último verso esclarece a alegoria realizada, lembrando que no texto alegórico vemos sempre inúmeras analogias. Ou seja, a poeta compara os exercícios da vida aos da academia: físicos de um lado; e não físicos (para ainda não dizermos metafísicos), de outro.

Pouco a pouco o vocabulário típico de uma aula de ginástica (postura, carga, movimentos, execução, ritmo..) é contaminado por palavras de outra área como curiosidade ou certezas. E adquirem ambiguidade em versos como “cuide das lesões” ou “aumente a resistência”, pois tanto podemos entender que se referem aos cuidados com o corpo ou com a mente. Isto sem mencionarmos a feliz fusão de “flexione as demandas”, quando as duas áreas se reúnem: a flexão externa e a demanda interna.

Do ponto de vista linguistíco, reparemos o uso reiterativo do modo imperativo, como se fosse a voz de comando de um professor de ginástica, cujo ponto máximo é o verso que desmascara as intenções do texto: “Respire sonhos, desejos, fantasias.”. Trata-se, portanto, de uma aula existencial, e não corporal.

Vejamos ainda como a autora diversifica o uso de vida e viver, de sentidos tão próximos. Se vida é a academia, o espaço para o exercício, viver – verbo de ação e intransitivo – é o próprio exercício, simples como flexões diárias, e denso, como os desejos e as fantasias mais profundas.

Este poema é um exemplo da interferência do poético (“exercícios” existenciais) no prosaico (academia de ginástica) e do deslocamento de sentidos, pois uma área de significados se apropria de outra. Diríamos até que a ideia do texto que antecede a sua realização é que já determinou o efeito poético.

A forma (alegórica e precisa) é que faz com que o leitor se sensibilize e pense sobre o que foi dito. Com permissão da poeta, propomos que escrever poesia também pode ser um inevitável (e agradável, por que não?) exercício.

Marcus Vinicius Quiroga


quinta-feira, 29 de março de 2012

OFICINA LITERÁRIA NO SIMPRO

OFICINA LITERÁRIA
COM MARCUS VINICIUS QUIROGA

CRIAÇÃO DE POEMAS, CONTOS E CRÔNICAS

DE 3 DE ABRIL A 12 DE JUNHO
ÀS TERÇAS-FEIRAS DAS 9H30 ÀS 12H30
30 HORAS DE AULA

SIMPRO – RUA PEDRO LESSA 35/3º ANDAR
TELEFONE: 32623440
E-MAIL: ESCOLA-RIO@SIMPRO-RIO.ORG.BR

ALEGRIA, ALEGRIA


ALEGRIA, ALEGRIA
Caetano Veloso


Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...





Caetano Veloso, vencedor de melhor letra do festival anterior, apresentou em 67 Alegria, Alegria, uma letra que destoava bastante de uma tradição da MPB: a presença da contemporaneidade (espaçonaves, guerrilhas, Cardinale, Brigite...); a fragmentação do mundo em metonímias (dentes, pernas...); a realidade brasileira (fome, fuzil...), sem discurso panfletário; a construção
sintática sem conectivos ( Ela pensa em casamento/Eu nunca mais fui à escola...); a simultaneidade e a superposição de fatos, em uma era já de muita informação ( Quem lê tanta notícia?), refletindo a vida fragmentada das cidades grandes...
O mote central de alegria e liberdade, melhor expresso nos versos “caminhando contra o vento/sem lenço, sem documento” e que se dissemina em “Os olhos cheios de cores/ O peito cheio de amores vãos”, “O sol é tão bonito” e em “Nada no bolso ou nas mãos”. O ir contra o vento ou contra a correnteza, ou até mesmo contra o sistema (por que não?) é enfatizado no verbo ir, várias vezes repetido, e no verso “Eu quero seguir vivendo, amor”, em que aparece também a ideia de movimento. A alegria se encontraria talvez no descompromisso, no não pertencimento, no seguir sempre em frente ...
Por outro lado, a rima documento e casamento associa, tanto na forma quanto no conteúdo, as duas coisas, afinal casamento é um documento e representa um mundo oficial contra o qual ele aparenta se colocar. Ainda que seja a mulher que queira, de forma insistente, se casar, sua voz parece contrariar um mundo sem lenço nem documento e uma vida sem nada no bolso ou nãos. Ou seja, o eu lírico transita de um mundo do sem (lenço, documento, escola, livros, telefone, fuzil, dinheiro...) para o mundo do com.
Há no ar um embate. A violência da época (crimes, bomba e fuzil) e a referência ao poder (em caras de presidente), de um lado, e a busca da libertação política de outro (guerrilhas); a liberdade de não ter documento e o documento do casamento; a coca-cola, o símbolo da capitalismo, nas mãos, e o “nada” nos bolsos e nas mãos,de outro; a televisão, ícone máximo de alienação e domínio do imaginário, de um lado, e o desejo de liberdade, de outro.
O verbo pensar não aparece em relação à escola ou a livros, mas a casamento e televisão, em evidente choque semântico. E a natureza das cidades litorâneas (Salvador? Rio de Janeiro?) prevalece (O Sol é tão bonito) sobre a cultura do contra, ou a contracultura que se delineava no fim dos 60.
Será que, vista hoje, Alegria, alegria, apesar de todas as inovações estéticas, não acabou sendo um canto de desencanto das dores que viriam após 68, com a vitória das celebridades da cultura de massa, de um país com fuzil e sem livros, de um modelo de vida com lenço e documento, com o fim do último movimento romântico da História em meados de 70.
Mais fragmentados nos tornamos, como cacos de coca. Aquela alegria hoje é apenas um retrato na parede. Mas como dói!

Marcus Vinicius Quiroga

segunda-feira, 19 de março de 2012


PONTEIO Capinam

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse o amor ou dinheiro...
Era um, era dois, era cem
Vieram pra me perguntar:
"Ô voce, de onde vai
de onde vem?
Diga logo o que tem
Pra contar"...
Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra, nem sol
Nem vento...
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar...(4x)
Pra cantar!
Era um dia, era claro
Quase meio
Era um canto falado
Sem ponteio
Violência, viola
Violeiro
Era morte redor
Mundo inteiro...
Era um dia, era claro
Quase meio
Tinha um que jurou
Me quebrar
Mas não lembro de dor
Nem receio
Só sabia das ondas do mar...
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola
Ponteio!
Meu canto não posso parar
Não!...
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar, pra cantar
Ponteio!...(4x)
Pontiarrrrrrrr!
Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro
Quase meio
Encerrar meu cantar
Já convém
Prometendo um novo ponteio
Por Certo dia que sei
inteiro
Eu espero não vá demorar
Esse dia estou certo que vem
Digo logo o que vim
Pra buscar
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar...
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar
Ponteio!...(4x)
Lá, láia, láia, láia...
Lá, láia, láia, láia...
Lá, láia, láia, láia...
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar
Ponteio!...(4x)
Pra cantar
Pontiaaaaarrr!...(4x)
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra Cantar!



A música vencedora do Festival da Record de 67 trazia no título uma palavra pouco comum na metrópole paulista e, de certa forma, estava no lado oposto ao das guitarras e inovações de arranjos de Domingo no Parque e Alegria, Alegria. Ponteio era uma continuidade, tanto na música quanto na letra, da MPB, só que com mais qualidade. Edu Lobo e Capinam, ainda jovens, já faziam parte do primeiro time de nossa música.
Permito-me aqui uma digressão. Os anos 60 na MPB representaram um salto qualitativo infelizmente jamais repetido na história de nossa música.
Se Ponteio trazia a viola (e não a guitarra do rock), mantendo diálogo com a tradição musical e literária, isto não significava que a letra significasse continuísmo ou acomodação. As aparências (e até muitas essências) enganavam e enganam.
O verbo pontear tinha conotações de resposta e resistência e a viola podia ser vista como uma arma para enfrentar a violência da época. Reparemos que esta violência aparece diversas vezes na letra (Senti chegar meu momento/violência/era morte redor mundo inteiro/ tinha um que jurou me quebrar). Nesta linha, faz-se referência ainda a “um dia” em que o mundo teria mudado (melhorado): “Certo dia que sei por inteiro/ Eu espero não vá demorar/ Esse dia estou certo que vem /Digo logo o que vim / Pra buscar/ Correndo no meio do mundo/ Não deixo a viola de lado/Vou ver o tempo mudado/E um novo lugar pra cantar...”
A viola nacional encontra-se em 67 a serviço da utopia, da esperança de um mundo mais justo. Para tanto o livre-arbítrio e a iniciativa se faziam necessários, como vemos talvez nos versos mais incisivos da canção: “ Jogaram a viola no mundo/
Mas fui lá no fundo buscar/ Se eu tomo a viola/Ponteio!/ Meu canto não posso parar”. Se formalmente falando, Alegria, alegria, era mais inovadora, ainda trazia as marcas do sistema (coca-cola ,casamento, televisão) contra as quais ela sugeria ir contra.
Ponteio foi, portanto, a vitória da esperança e da determinação que viola e pontear simbolicamente significavam (significam).

Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 15 de março de 2012

DOMINGO NO PARQUE



Domingo no Parque
Gilberto Gil

O rei da
brincadeira
Ê, José!
O rei da confusão
Ê, João!
Um trabalhava na feira
Ê, José!
Outro na construção
Ê, João!...

A semana passada
No fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde
Saiu apressado
E não foi pra Ribeira jogar
Capoeira!
Não foi pra lá
Pra Ribeira, foi namorar...
O José como sempre
No fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo
Um passeio no parque
Lá perto da Boca do Rio...

Foi no parque
Que ele avistou
Juliana
Foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João...


O espinho da rosa
feriu Zé
(Feriu Zé!) (Feriu Zé!)
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Ô, José!
A rosa e o sorvete
Ô, José!
Foi dançando no peito
Ô, José!
Do José brincalhão
Ô, José!...
O sorvete e a rosa
Ô, José!
A rosa e o sorvete
Ô, José!
Oi girando na mente
Ô, José!
Do José brincalhão
Ô, José!...
Juliana girando
Oi girando!
Oi, na roda gigante
Oi, girando!
Oi, na roda gigante
Oi, girando!
O amigo João (João)...
O sorvete é
morango
É vermelho!
Oi, girando e a rosa
É vermelha!
Oi girando, girando
É vermelha!
Oi, girando, girando...


Olha a faca! (Olha
a faca!)
Olha o sangue na mão
Ê, José!
Juliana no chão
Ê, José!
Outro corpo caído
Ê, José!
Seu amigo João
Ê, José!...

Amanhã não tem
feira
Ê, José!
Não tem mais construção
Ê, João!
Não tem mais brincadeira
Ê, José!
Não tem mais confusão
Ê, João!...

Êh! Êh! Êh Êh Êh
Êh!
Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!
Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!
Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!
Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!...


Domingo no parque é um exemplo de letra que depende de música, como já vimos há bastante tempo aqui no blog. Sem a melodia e os arranjos do festival, o texto perde muito.
Vejamos alguns pontos. Trata-se duma letra narrativa que se inicia com a apresentação dos personagens; em seguida, temos a narrativa propriamente dita e os fatos que ocorrem com José e João são relatados. Lemos, então, um texto em prosa.
Na terceira estrofe, o uso da linguagem coloquial quebra as regras sintáticas e introduz poesia ao texto, apesar das rimas tão banais que se sucedem: João, mão, ilusão coração.
Na estrofe seguinte, temos uma relação semântica pobre: o espinho ferir e o sorvete gelar. Versos mais gastos não existem. No entanto, a graça da canção se dá com a música e com a sequência de
versos que sugerem o rodopiar de uma roda gigante, como se fosse uma onomatopeia auditiva e visual. As palavras não trazem conotações novas, mas o ritmo da música traduz a vertigem da roda girando e das imagens girando na mente de José.
Depois ocorre mais um fato: o crime passional. E os versos mantêm a tensão da roda, unindo rosa vermelha e sorvete de morango no sangue dos amantes mortos por José. A sucessão de cenas da letra leva ao clímax do duplo assassinato: o feirante mata o amigo operário e a namorada que o traía. A matéria que mais lembra notícia de jornal sensacionalista tem um
tratamento musical (mais do que poético) que a distancia da denotação jornalística. Curiosamente, o crescendo da relação triangular que termina com as duas mortes, dá vez a um comentário óbvio, em ritmo mais lento, dizendo que amanhã não haverá feira nem construção, e temos um cantor sorridente, quase feliz, acompanhado pelos muito jovens Mutantes que parecem dançar de tão animados.
Esta letra é útil para pensarmos como um texto que trabalha com repetições e clichês, graças à música e aos arranjos do maestro Duprat, trouxe novidade ao festival. As guitarras salvaram o velho triângulo amoroso com suas flores, sorvetes e facas. Mas isto já é outra história.


Marcus Vinicius Quiroga

domingo, 11 de março de 2012

II - FESTIVAL 67. RODA VIVA





RODA VIVA
Chico Buarque

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...(4x)


No festival de 67 da Record, havia uma oposição, não totalmente declarada, (apesar da passeata contra as guitarras, da qual G. Gil estranhamente participara) entre uma “roupagem” diferente de Gil, Caetano e os Mutantes e a tradicional (digamos assim) de Edu Lobo, Chico Buarque, Sérgio Ricardo etc. De um lado, arranjos mais sofisticados e o uso de guitarras na MPB; do outro, os ritmos nordestinos e o samba.
Se a música de Roda viva era um samba, o que, portanto, daria continuidade a uma tradição, sua letra tratava do descontínuo. Caso alguém diga que os versos octossílabos de octetos e o refrão também remetem à tradição, lembrarei que em 67 a Semana de Arte Moderna, com o seu verso livre, já tinha a maturidade de seus 45 anos, não mais uma adolescente travessa. Certo também que o refrão tornou-se um apelo nos festivais, para cativar as plateias que, com palmas e entusiasmo, influenciavam o júri.
De qualquer forma, se compararmos com as demais letras selecionadas, ela tem uma profundidade de questionamento que não aparece, por exemplo, em Domingo no parque, ainda que esta fosse mais inovadora esteticamente (na segunda parte e nos arranjos). Queremos dizer com isto que o uso de formas tradicionais (sic) pode servir para conteúdos não acomodados.
As quatro estrofes põem em questão a força do tempo, da engrenagem social, da mídia, da contemporaneidade, de tudo que nos afasta de nós mesmos. Voz, rosa, roda de samba, barco, mulata, viola são signos populares, de fácil compreensão, e habitam o repertório da MPB, ao passo que, na época, as referências (refrigerantes, atrizes de cinema e a fragmentação da mídia) de Alegria, alegria eram mais atuais.
Os quatro versos iniciais das quatro estrofes variam a reflexão sobre o estar naquele momento no mundo. O sujeito (a gente) se encontra em desencontro com o mundo, este cresceu e aquele estancou; vai contra a corrente (A repressão da ditadura? As pressões sociais e sua hipocrisia? As leis do mercado?...); lamenta certas mudanças (ou perdas) que tiraram a sua alegria de cena; e conclui com o eterno tema da efemeridade do tempo: tudo é ilusão, tudo passa, tudo se desfaz.
Neste sentido, o autor retoma o final de A banda, vencedora do festival anterior: ”Mas para meu desencanto/ O que era doce acabou/Tudo tomou seu lugar/ Depois que a banda passou/E cada qual no seu canto/ Em cada canto uma dor/ Depois da banda passar/ Cantando coisas de amor”
Vemos aqui o mesmo tom de desalento (embora na ocasião todos achassem A Banda uma música alegre). O questionamento do livre-arbítrio, da escolha e da iniciativa aproxima mais esta letra de versos de Ponteio do que do crime passional de Domingo no parque: “Jogaram a viola no mundo/ Mas fui lá no fundo buscar/ Se eu tomo a viola/Ponteio!/Meu canto não posso parar/ Não!...” Só que, se Capinam fala de ação e resistência, Chico fala de ação e fracasso: a roda viva, ou melhor, as rodas vivas políticas, sociais, musicais ou literárias vencem.
Triste profecia.


Marcus Vinicius Quiroga

terça-feira, 6 de março de 2012

67, UM ANO ANTES DO ANO QUE NÃO TERMINOU


Assistindo ao DVD do Festival da Record de 67, lamentamos que o documentário, tanto tempo depois, não tenha abordado a questão do “balaio”, gíria usada na época para designar as músicas que já seriam finalistas, independente da seleção. Paulinho Machado de Carvalho ainda esclarece que seu desejo era que o festival se assemelhasse ao catch, que tanto sucesso fazia na ocasião. O telecatch era um programa de luta livre que criava personagens para seus lutadores: o mocinho, o vilão, o desonesto , o cruel, o balofo etc Para melhor compreensão do cath, recomendamos o artigo de Roland Barthes publicado em Mitologias (1956).

Não teria sido ChIco Buarque o mocinho e Sérgio Ricardo, o vilão? Mas tanto Roda viva quanto Beto bom de bola não eram canções para mocinhos acomodados. Ao contrário, desafinavam o coro dos contentes. Caetano, Gil, Roberto Carlos teriam quais personagens? A polêmica viola x a guitarra não seria um golpe de marketing? E assim segue...

Sem querer entrar no mérito da qualidade (talvez tenha sido de fato a geração mais talentosa da música em nosso país), chamamos atenção para a coincidência de nomes que se alternavam nos primeiros lugares dos festivais dos 60/70, no Rio e em São Paulo, tanto compositores como intérpretes: Vinicius de Morais, Chico Buarque, Edu Lobo, Baden Powel, Gilberto Gil, Vandré, Antonio Adolfo e Tibério Gaspar , Elis Regina, Evinha...

O balaio não desapareceu. Ainda faz parte dos concursos em todas as artes. Só que a maior parte do público não sabe disto. Não percebe que todo festival ou concurso é um tipo de Oscar, cujas indicações já bastam para aumentar a bilheteria do filme. Acreditamos que hoje em dia ninguém mais acredite na validade do Oscar, que sempre foi um prêmio da indústria cinematográfica com objetivos mais que explícitos de marketing: consolidação de nomes, divulgação, bilheteria... As nossas artes não dão o dinheiro hollywoodiano. Somos ainda a colônia, não a matriz. Mas de qualquer forma, mantemos o hábito de usar festivais, concursos e prêmios para lançar artistas ou legitimar os consagrados.

Paulinho Machado (o único depoimento interessante neste aspecto) é claro quando diz que o festival era só um “programa de televisão”, e de auditório, ou seja, era feito tendo em vista o público, que comparecia, como se fosse uma torcida organizada de clube. Aplaudiam e vaiavam sem ouvir a música, afinal estavam ali para torcer, não para apreciar música alguma. As claques (como se dizia) eram também um personagem no estilo do catch.

O legado destes festivais foram muitas canções de qualidade, não os mecanismos viciados de lançamento, promoção e consagração dos artistas da indústria fonográfica. Uma aparição no festival, uma boa colocação, uma vaia organizada, tudo aumentava as vendas dos discos, que, em suma, era o que importava.

Infelizmente as boas canções escassearam, permanecendo só os balaios na música, na literatura, na pintura, no teatro, no cinema...E que o público tenha a boa-fé de acreditar no critério e na lisura dos júris.

Marcus Vinicius Quiroga

sexta-feira, 2 de março de 2012

POESIA E PINTURA, UMA POSSÍVEL APROXIMAÇÃO


Durante séculos, a pintura só era vista frente a frente, nos museus, nas galerias ou nas casas dos colecionadores. Depois surgiram as fotografias em livros e as reproduções. E mais recentemente os museus da internet. Isto significa que durante muito tempo os quadros eram apreciados por um número bastante reduzido de pessoas. A pintura era uma arte para poucos.

No século XX, revistas e jornais tornaram alguns quadros mundialmente conhecidos, ainda que não vistos, como a Mona Lisa, O grito, Os girassóis de Van Gogh ou os pescoços de Modigliani, por exemplo. Livros de arte, slides, vídeos, tudo colaborou para uma divulgação da pintura e a criação de um público maior. E assim aumentou-se o número de apreciadores de pintura, sendo pequeno ainda o número de consumidores, uma vez que um quadro é n vezes mais caro do que um cd ou um livro.

A poesia, ao contrário, desde o início da publicação de livros, vem ocupando as estantes dos leitores, que não precisam sair de casa e ir a um museu, para ter contato com esta arte. Jornais, revistas, declamações e espetáculos divulgaram o texto poético. E hoje em dia temos também blogs, sites e gravações a serviço do poema. Não há dúvida de que nunca se “publicou” tanta poesia quanto hoje, no entanto...

Dizia Mário Quintana que só poeta lia outro poeta. Blague à parte, há muitos poetas que nem leram os grandes poetas de sua língua, mas escrevem e escrevem. Na prática, temos um número elevado de edições de livros de poesia, não de leitores.

Drummond, o poeta-referência de nossa literatura, está sendo reeditado e cada livro seu terá 3.000 exemplares. Se pensarmos que no momento um livro de um autor religioso ultrapassou a marca de 7 milhões de exemplares, algo não vai bem com a poesia. O fato é que mal distribuído e mal divulgado, o livro de poesia é pouco lido.

Vai aqui a pergunta. Não criaria a poesia, por suas características, uma distância normal com o leitor médio? Este, sabidamente, prefere narrativas a abstrações, velocidade de leitura à profundidade, descrições a metaforizações, “realismos” a sugestões etc

Ou seja, não seria da natureza (argh!) da poesia a circulação por poucos olhares? Letra de música - não poesia - pode ser pop, isto mesmo, popular. Se um poeta de livro didático como Drummond e que foi o mais interpretado nas páginas dos vestibulares do Rio (talvez do país) tem 3.000 exemplares, um poeta reconhecido (mas menos famoso ) tem 1.000; e um iniciante, 300 ou 200. Esta é a verdade.

Façamos enfim a aproximação com a pintura. Por que esperarmos que um livro de poesia seja lido por 2 milhões de leitores? Por que não aceitarmos que ele entre em contato só com 150 ou mesmo 80 leitores, como de fato acontece?

A mídia da música ou do cinema não é a mesma das artes poética e plástica, portanto as expectativas de público devem ser bem diferentes. Não seria a poesia, como a pintura e a escultura, aquele biscoito fino (como disse Oswald de Andrade) que permanecerá biscoito fino, sem jamais ser massificado? Quantas pessoas você realmente conhece que frequentam galerias de arte? E quantas que vão a cinemas ou a shows de música?

Ter um público pequeno talvez não seja a fatalidade, mas o destino, da poesia. E não devemos, escritores, professores, críticos e editores, nos lamentar. E, sim, ler um poema com o carinho e o tempo que um quadro também merece. Para um livro editado em pequena escala uma leitura artesanal.

Marcus Vinicius Quiroga

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

UMA CANÇÃO INTEMPESTIVA

On The Road To Find Out

Cat Stevens

Well I left my happy home to see what I could find out
I left my folk and friends with the aim to clear my mind out
Well I hit the rowdy road and many kinds I met there
Many stories told me of the way to get there

So on and on I go, the seconds tick the time out
There's so much left to know, and I'm on the road to find out

Well in the end I'll know, but on the way I wonder
Through descending snow, and through the frost and thunder

Well, I listen to the wind come howl, telling me I have to hurry
I listen to the robin's song saying not to worry

So on and on I go, the seconds tick the time out
There's so much left to know, and I'm on the road to findout

Then I found myself alone, hopin' someone would miss me
Thinking about my home, and the last woman to kiss me, kiss me

But sometimes you have to moan when nothing seems to suit yer
But nevertheless you know you're locked towards the future

So on and on you go, the seconds tick the time out
There's so much left to know, and I'm on the road to findout

Then I found my head one day when I wasn't even trying
And here I have to say, 'cause there is no use in lying, lying

Yes the answer lies within, so why not take a look now?



Após assistir a um DVD de Cat Stevens, a reflexão intempestiva, motivada pela história do cantor-compositor que largou tudo no auge da carreira para ter uma vida religiosa, tornando-se muçulmano. E que mais de 30 anos depois retomou as canções, sem abandonar suas crenças espirituais.
Outros DVDs recentes me trouxeram à tona Xamana Gusmão e Nelson Mandela, que ficaram 7 e 27 anos, respectivamente, presos por suas ideias políticas em regimes totalitários e extremamente violentos. E saíram um dia para governar seus países.
As vidas dos três mais esta canção de Stevens podem nos ajudar a pensar sobre o que é o tempo.

Marcus Vinicius Quiroga

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

POEMAS SUJOS I

A mão suja
Carlos Drummond de Andrade

Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos.

A princípio oculta
no bolso da calça,
quem o saberia?
Gente me chamava
na ponta do gesto.
Eu seguia, duro.
A mão escondida
no corpo espalhava
seu escuro rastro.
E vi que era igual
usá-la ou guardá-la.
O nojo era um só.

Ai, quantas noites
no fundo da casa
lavei essa mão,
poli-a, escovei-a.
Cristal ou diamante,
por maior contraste,
quisera torná-la,
ou mesmo, por fim,
uma simples mão branca,
mão limpa de homem,
que se pode pegar
e levar à boca
ou prender à nossa
num desses momentos
em que dois se confessam
sem dizer palavra...
A mão incurável
abre dedos sujos.

E era um sujo vil,
não sujo de terra,
sujo de carvão,
casca de ferida,
suor na camisa
de quem trabalhou.
Era um triste sujo
feito de doença
e de mortal desgosto
na pele enfarada.
Não era sujo preto
– o preto tão puro
numa coisa branca.
Era sujo pardo,
pardo, tardo, cardo.

Inútil, reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!

Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura – transparente –
colar-se a meu braço.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

TO LEAVE, TO LIVE

She's Leaving Home

Wednesday morning at five o´clock as the day begins
Silently closing her bedroom door
Leaving the note that she hoped would say more
She goes downstairs to the kitchen
Clutching her handkerchief
Quietly turning the backdoor key
Stepping outside she is free
She
We gave her most of our lives
Is leaving
Sacrified most of our lives
Home
We gave her everything money could buy
She´s leaving home after living alone
For so many years
Father snores as his wife gets into
Her dressing gown
Picks up the letter that´s lying there
Standing alone at the top of the stairs
She breaks down and cries to her husband
"daddy, our baby is gone"
Why would she treat us so thoughtlessly?
How could she do this to me?
She
We never thought of ourselves
Is leaving
Never a thought of ourselves
Home
We struggled hard all our lives to get by
She´s leaving home after living alone
For so many years
Friday morning at nine o´clock she is far away
Waiting to keep the appointment she made
Meeting a man from the motor trade
She
What did we do that was wrong?
Is having
We didn´t know it was wrong
Fun
Fun is the one thing that money can´t buy
Something inside that was always denied
For so many years
She´s leaving home, bye, bye

Lennon / McCartney






Ouvindo Father and son, de Cat Stevens, lembrei-me de She is leaving home, por motivos óbvios. Saio de um diálogo frustrado entre pai e filho para o texto surpreso de um casal diante da partida da filha. Em ambos, a distância de gerações, a incompreensão, a cegueira por parte dos mais velhos que não conseguem se levantar da poltrona de sua época e subir no estribo do bonde da história.
Entre parênteses temos as falas do casal que não entende o que está acontecendo, pois jamais prestou atenção ao que existia a seu redor. Quando de repente veem que a filha é uma estranha, dizem a clássica frase “What did we do that was wrong?”.
São duas letras sobre a falta de comunicação ou sobre o egoísmo
de pais que não enxergam os filhos. Claro que Cat, John e Paul eram jovens quando fizeram as letras e estavam ao lado dos filhos, em oposição aos pais. Mas quem, com mais de trinta, ousaria contrariar as letras?
Notemos o elemento dual presente em ambas: pai e filho, pais e filha, duas gerações, imobilidade e movimento etc...Em ambas também a partida dos filhos em busca de sua história, de sua identidade. Imagino que seriam interessantes composições que retomassem o tema, como se fossem Father and son II ou She’s leaving home II, com o discurso atual dos mesmos personagens. Que balanço fariam 40 anos depois pais e filhos? Como todos nós somos ao mesmo tempo nossos pais e nossos filhos, que balanço fazemos de nossas partidas e do que ficou para trás?
Quem se esqueceu em algum porto, não ouviu as palavras
finais da canção de Stevens:”Now there's a way and I know/
That i have to go away/ I know I have to go”.


Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

DE OBRAS LITERÁRIAS E/OU NÃO 2

ANALOGIAS A RESPEITO DE CASA

O engenheiro
antes de projetar a ponte
tem que crer na existência da outra margem


Inútil
reformar mais uma vez a lateral torta
do quinto andar
Melhor seria pensar
sobre as fundações


Ao acordar
sempre abria a janela do quarto
Mas outras janelas
permaneciam fechadas
durante todo o diálogo


Como costumava se atirar pela janela
mudou-se para um rés-do-chão


Carregava a casa nas costas
e se sentia sempre do lado de fora


Em casa erguida só por uma pessoa
mora uma pessoa só


Com uma personagem de O Cortiço
de Aluísio de Azevedo
que jogava baldes de água no assoalho
obstinadamente
aprendi a relação entre concreto e abstrato


As portas realmente surdas
não aceitam chaves


Os engenheiros
que fazem a planta
depois da obra concluída
têm cursos de ideologia

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

DE OBRAS LITERÁRIAS E/OU NÃO

Em um período de obras, mais não-literárias do que literárias, veio-me a lembrança
um poema antigo, circunstancial, feito como consequência de outro longo tempo dedicado às obras de uma casa. Muitas analogias são possíveis sobre a construção, a reforma ou a descontrução de uma casa e de um homem. E as analogias servem como material (sem trocadilho) para reflexão.


A CASA E O HOMEM


NÃO, COM O HOMEM É DIFERENTE.
NÃO HÁ LICENÇA PARA REFORMA,
APROVAÇÃO DA PREFEITURA,
PLANTA-BAIXA, MESTRE DE OBRA.
COM O HOMEM NÃO É TÃO SIMPLES
QUANTO PÔR UMA PAREDE ABAIXO,
FECHAR UMA JANELA LATERAL,
OU VISTORIAR A INSTALAÇÃO ELÉTRICA.
MAIS DIFÍCIL AINDA QUANDO SE TRATA
DE UMA DEMOLIÇÃO POR INTEIRO:
NÃO HÁ AZULEJOS RAROS,
JANELAS COLONIAIS REAPROVEITÁVEIS.
COM O HOMEM NÃO HÁ AO MENOS
A PERSPECTIVA DO TERRENO
PARA UM PRÉDIO DE MUITOS ANDARES.
HÁ NA DEMOLIÇÃO SÓ A SUPERFÍCIE,
UM LIMIAR EM QUE NÃO SE DISTINGUE
O QUE É A TERRA DO ENTULHO
DA TERRA DA SEPULTURA.

UM HOMEM NÃO É UM ENDEREÇO
DO QUAL SE TENHA LEMBRANÇA.
QUANDO ELE DESAPARECE,
SUA AUSÊNCIA É TÃO BRANCA,
SEM POEIRA, SEM VESTÍGIO
SEM OS HEMATOMAS DA MARRETA.
UM HOMEM NÃO É RECOLHIDO
POR PÁS GIGANTES DE TRATORES
E DEPOIS LEVADO AO DEPÓSITO.
AO DORES DE UM HOMEM
NÃO SÃO VISTAS NO SEU PÓ.
TAMPOUCO ELE SERVE DE ATERRO,
MENOS AINDA DE ADUBO.
SE A DEMOLIÇÃO É POR INTEIRO,
O HOMEM VIRA SONHO INTERRUPTO.


Marcus Vinciius Quiroga

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O USO DA PRETERIÇÃO

VERSO

Faço versos leves leves
são versos para brincar
não falo de vidas destruídas
vidas negadas de serem vividas.
Faço versos leves mas tão leves
que se quebram em mil
rimas ao se tocarem.
Não falo do trabalho forçado
do operário desrespeitado
nem de crianças famintas.
Versos leves que de tão leves
parecem feitos para sonhar.
Não falo da violência
se alastrando dos
estupros do corpo
e da mente.
Faço versos versos leves leves leves
de nada falam
os meus versos.

Auricéia





Preterição (ou paralipse)

É uma figura de retórica, uma figura de pensamento denominada preterição. Consiste em tratar um determinado assunto ao mesmo tempo que se afirma que ele será evitado, fingindo que não se quer falar dele

"Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção."

O trecho que acabamos de ler é de Machado de Assis, extraído do "Conto de Escola", uma de suas narrativas mais conhecidas. A citação vem a propósito de comentar uma figura de linguagem de efeito bastante curioso e, às vezes, irônico. Trata-se da preterição (ou paralipse), que, segundo o narrador machadiano, produz "excelente efeito no estilo". Ora, para evitar o autoelogio e, ao mesmo tempo não deixar de fazê-lo, usa o verbo de elocução modificado por uma negativa. Assim, afirma que não vai dizer algo, mas, ao mesmo tempo, o diz.
Certamente, num caso como esse, o discurso aparece revestido de ironia --figura por meio da qual se diz algo com o intuito de exprimir o seu oposto. Embora tenha dito que não contaria algo, na verdade o contou. Seria falso, no entanto, dizer que o recurso sempre se presta à ironia. Para evitar um discurso afetado ou pretensioso, há quem recorra à preterição. Dessa maneira, o assunto surge de maneira enviesada, mas é exatamente pelo fato de ser anunciado como secundário (ser preterido) que a atenção se volta para ele. (texto de Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha)
No caso do poema de Auricéia, a figura é usada para diminuir o impacto da violência do tema e versos como “Versos leves que de tão leves/parecem feitos para sonhar” soam irônicos. Desta forma, a autora tratou do tema, infelizmente tão recorrente em nossa realidade urbana, de modo original, fugindo à denúncia óbvia e mostrou que recursos estilísticos antigos (há o clássico exemplo de Cícero) podem ser usados hoje em dia com expressividade, ao contrário do que julga parte da crítica contemporânea.


Marcus Vinicius Quiroga

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

AINDA SOBRE UMA IMAGEM (A GARRAFA)



GARRAFA VAZIA


SUPONHA
QUE O LÍQUIDO DA CERVEJA
SEJA UM ESPELHO
PONHA-SE
FRENTE A FRENTE
COMO SE O TEMPO
ESTIVESSE A VÊ-LO

NO VAZIO
DA GARRAFA VAZIA
UMA LEMBRANÇA FLUTUA:
O QUE FEZ DA VIDA
QUE NÃO PARECE SUA?

SUPONHA
QUE O LÍQUIDO DA CERVEJA
SE ESPALHE PELA MESA
SINTA COM OS DEDOS
O CONTEÚDO QUE SE ESVAI

O GARÇOM TRAZ
MAIS OUTRA GARRAFA
TUDO PASSA EM SEGUNDOS
UM DESEJO NÃO SE ABAFA
OLHE NO FUNDO DO COPO
DE RELANCE, POR UM TRIZ

O QUE FEZ DA VIDA
QUE NÃO QUIS SER FELIZ?


Lúcio Ferreira


Há poucos dias vimos uma letra de Jim Croce e observamos a imagem da garrafa. Por coincidência, encontrei este texto (poema ou letra?) que também privilegia a imagem. No caso, chamamos atenção outra vez para a materialização (a garrafa) de um sentimento ou sensação de vazio. Um objeto feito para conter, conter líquidos, é usado com a finalidade de falar sobre a ausência, o não contido, ou como diz o texto, metaforicamente, o líquido que se esvai, que se espalha, que se perde.
O objeto do eu lírico serve também para motivar uma reflexão sobre o tempo perdido (esvaído como a cerveja), sobre a vida que não coincide, que não se reconhece no espelho do fundo do copo. No texto embriaguez e lucidez se misturam. A visão ébria não tem lateralidade e muitas vezes não vê o que está perto, mas ao lado.
A visão sóbria pode não ser uma virtude. De qualquer forma, nos lembramos dos versos de Baudelaire que sugere nos embriagarmos de vinho ou de virtude.A sobriedade é branca!

Marcus Vinicius Quiroga

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

IT GOES WITHOUT SAYING!

O EX-GAUCHE

O POETA HOJE TEM AGENTE,
SECRETÁRIA,
ASSESSOR DE IMPRENSA

JÁ NÃO PENSA EM POLÍTICA,
JÁ NÃO PENSA.

CAIU NAS GRAÇAS DA CRÍTICA
E ACUMULA
MEDALHAS DE OURO DAS ACADEMIAS.

O POETA AGORA É ARTISTA POP:
SÓ QUER SABER DA MÍDIA,
E DE SER LÍDER DO IBOPE,

SEU DIA
É PARA ENTREVISTAS,
FESTAS E FOTOGRAFIAS.

JÁ NEM SE LEMBRA DO TEMPO
EM QUE ESCREVIA POESIA.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

UMA IMAGEM


TIME IN A BOTTLE
Jim Croce


IF I COULD SAVE TIME IN A BOTTLE
THE FIRST THING THAT I'D LIKE TO DO
IS TO SAVE EVERYDAY TILL ETERNITY PASSES AWAY
JUST TO SPEND THEM WITH YOU
IF I COULD MAKE DAYS LAST FOREVER
IF WORDS COULD MAKE WISHES COME TRUE
I'D SAVE EVERYDAY LIKE A TREASURE AND THEN
AGAIN I WOULD SPEND THEM WITH YOU
BUT THERE NEVER SEEMS TO BE ENOUGH TIME
TO DO THE THINGS YOU WANNA DO
ONCE YOU FIND THEM
I LOOKED AROUND ENOUGH TO KNOW
THAT YOUR THE ONE I WANNA GO THRU TIME WITH
IF I HAD A BOX JUST FOR WISHES
AND DREAMS THAT HAD NEVER COME TRUE
THE BOX WOULD BE EMPTY EXCEPT FOR THE MEMORY OF HOW
THEY WERE ANSWERED BY YOU
BUT THERE NEVER SEEMS TO BE ENOUGH TIME
TO DO THE THINGS YOU WANNA DO
ONCE YOU FIND THEM
I LOOKED AROUND ENOUGH TO KNOW
THAT YOUR THE ONE I WANNA GO THRU TIME WITH





O texto (poema ou letra) às vezes se baseia em uma só imagem. Neste caso, o tempo e uma garrafa. Mais uma vez estamos diante do uso do concreto e do abstrato, embora garrafa não nos lembre tempo, Temos, sim, a imagem concreta do tempo engarrafado, representando a imagem do tempo reservado para ser usado em “outro momento”.
Ou, talvez e também, Jim Croce queira nos lembrar da efemeridade do tempo (eterno tema, sem trocadilho), como vemos em “but there never seems to be enough time/to do the things you wanna do/once you find them”.
Na impossibilidade de guardar o tempo, para aproveitá-lo em uma situação melhor, só nos resta (e isto não é pouco) vivê-lo agora da melhor forma possível, pois as garrafas (até as do tempo) quebram.
Jim Croce morreu bem jovem em um acidente. Talvez soubesse (talvez não) que não devemos dizer não ao tempo, não devemos adiar, não devemos esperar. Deixemos a garrafa aberta e que o tempo e as imagens poéticas fluam.


Marcus Vinicius Quiroga

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

LIÇÃO DE POESIA

LIÇÃO SOBRE A ÁGUA (Antônio Gedeão)

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com exceções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.


Reparemos como um poema surge de uma definição denotativa que tem, a princípio, apenas algumas rimas que indicam a intenção de ser poema. E, diga-se de passagem, não são rimas atraentes, mas corriqueiras. Súbito, no verso “Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão”, dá-se a reviravolta, e da denotação passamos para a conotação, com a instalação do poético.
O tema da morte é apresentado de forma extremamente original e não piegas ou sentimentaloide. De uma aparen-temente simples descrição, a da água, o texto, de forma irônica e sutil, refere-se a Ofélia de Shakeaspeare; da página de um dicionário para a tragédia teatral.
Acreditamos que, se no lugar de Ofélia fosse um nome qualquer, o poema perderia em parte o seu propósito, mas, mesmo assim, causaria efeito, pois falaria da morte através da definição da água. Sem criar suspense, o poeta só revela o verdadeiro objeto de seu texto nos quatro versos finais. Isto nos lembra que faz parte da literatura falar de uma coisa para querer dizer outra.