segunda-feira, 3 de setembro de 2012


 

LITERÁRIAS

 

Castro Alves

mostrou

que até os românticos

dão um tiro no pé.

 

Álvares de Azevedo

segundo Mário de Andrade,

tinha síndrome de “amor e medo”.

 

Gonçalves Dias

deixou o Maranhão

só para escrever uma canção.

Parece que não sabia

que em São Luís

já teria seu exílio.

 

Eis um típico engano:

o  romântico achou

que tinha o amor sob controle

e tornou-se parnasiano.

 

 

 

 

O poeta ouviu

o crítico do andar de cima

e preferiu a rima à solução.

Mesmo o romantismo

tem que ter um pé no chão.

 

Amor, estrela, lua.

O poeta flutua

na torre sem marfim solitária.

Fechado em seu tempo,

não vê que a vida é diária.                               ‘

domingo, 2 de setembro de 2012


 

 

 
 
ESPREITA
 
Na cama, ouvimos gotejar o silêncio.
Entre lençóis apenas se escuta
o barulho de luzes
acendendo a noite.
As ruas caminham
com seus passos de paralelepípedos
Assustados com a chuva,
o corpo curvado da ladeira.
para se esquivar da acupuntura
das agulhas molhadas.
O quarto sobrevive
à queixa
e esperamos, indóceis, o silêncio escurecer.
 
Ronaldo Costa Fernandes
 
    Vejamos a presença da sinestesia neste poema, para distinguirmos o caso específico da sinestesia nas imagens sensoriais.Esta figura de palavra  consiste em agrupar e reunir sensações originárias de diferentes órgãos do sentido: visão, tato, olfato, paladar e audição. Já denominamos de imagem sensorial, quando existe apenas a referência aos sentidos, mas sem a sua união.
    No terceiro verso, temos “ barulho de luzes’ e no último, “silêncio escurecer”, ou seja, a imagem une os sentidos auditivo e visual nos dois casos.
 
 Marcus Vinicius Quiroga
 



 

 

 

 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

LEMINSKINARES


A MÃO SÓ COLHE

O QUE ESCOLHE

(MAS SERÁ QUE SABE?)

 

NADA DE ADÁGIOS,

ANEXINS OU MÁXIMAS

NUM POEMA MÍNIMO.

 

OUTRORA

HAVIA A PALAVRA OUTRORA.

HÁ O SILÊNCIO AGORA.

 

NO ROSTO O RISO

ESCONDE O ROSTO.

O SEGREDO É VISÍVEL

NO QUE LHE É SOBREPOSTO

 

POEMAS NÃO EMBRIAGAM,

NEM PAGAM DESPESAS NO BAR,

BAUDELAIRE.

POEMAS ÀS VEZES AFAGAM

E FOGEM

ASSIMÉTRICOS.

 

QUER ACREDITE (OU NÃO)

ARRISQUE UM PALPITE NO ACASO

A VIDA SÓ SURPREENDE

QUEM DELA FAZ POUCO CASO

 

OS TEMPOS ERAM QUASE TREVA

O POEMA , QUASE TROVA.

TUDO ISTO POSTO,

ERA QUASE DEMAIS PRO MEU GOSTO.

 

A FLAUTA REVÊ A FALTA

QUE O SOM FAZ:

UM DIA TEVE NA MÃO

MUITO MAIS

QUE UMA ALITERAÇÃO.

MAS DEU OUVIDO

A AMIGOS CRÍTICOS

E O SOM SE FOI

POR ONDE A FLAUTA NÃO VAI:

UMA CANÇÃO A DOIS

EM TEMPOS ATRÁS.

 

 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012


DO LP



Brasil, Do Guarani Ao Guaraná (1968)Sidney Miller:Pois É, Pra Quê?





Pois é pra quê?



O automóvel corre
A lembrança morre
O suor escorre
E molha a calçada
Há verdade na rua
Há verdade no povo
A mulher toda nua
Mais nada de novo
A revolta latente
Que ninguém vê
E nem sabe se sente
Pois é – pra quê?

O imposto, a conta
O bazar barato
O relógio aponta
O momento exato
Da morte incerta
A gravata enforca
O sapato aperta
O país exporta
E na minha porta
Ninguém quer ver
Uma sombra morta
Pois é – pra quê?

Que rapaz é esse?
Que estranho canto!
Seu rosto é santo
Seu canto é tudo
Saiu do nada
Da dor fingida
Desceu a estrada
Subiu na vida
A menina aflita
Ele não quer ver
A guitarra excita
Pois é – pra quê?

A fome, a doença
O esporte, a gincana
A praia compensa
O trabalho, a semana
O chope, o cinema
O amor que atenua
O tiro no peito
E o sangue na rua
A fome a doença
Nem sei mais porque
Que noite, que lua
Meu bem – pra quê?

O patrão sustenta
O café, o almoço
O jornal comenta
Um rapaz tão moço
O calor aumenta
A família cresce
O cientista inventa
Uma flor que parece
A razão mais segura
Pra ninguém saber
De outra flor que tortura
Pois é – pra quê?

No fim do mundo
Tem um tesouro
Quem for primeiro
Carrega o ouro
A vida passa
No meu cigarro
Quem tem mais pressa
Que arranje um carro
Pra andar ligeiro
Sem ter porque
Sem ter pra onde
Pois é – pra quê?

Pois é – pra quê?








Depois de 44 anos, como lemos esta letra do talentoso Sidney Miller?

Mudou o país? Mudamos nós? Pouco mudou? Nada mudou?

Para que ocasiões ela ainda serve de fundo musical?





Marcus Vinicius Quiroga  

terça-feira, 14 de agosto de 2012


POEMA DE SETE MÁSCARAS



Quando morri ,

o cineasta Godard

disse: “Basta de fita!

Não faça cena!

No cinema

todo sangue é extrato de tomate”.



Os livros espiam da estante

Os discos se espalham na noite.

Nada será como antes,

se houvesse na agenda o tempo.



O vagão passa cheio de tecnologia:

celulares, iPods, tablets.     

Para que tanta fala

e tão pouco diálogo?

Pergunto a mim, do outro lado.



O homem atrás dos óculos

é sério e simples. Irônico

o destino e seus clichês.

Lê Sartre e Camus

num bulevar francês.



Onde é que Deus se esconde,

perdidos o bonde

e a esperança?



Mundo mundano mundo,

não fossem tantos os danos.

Meu coração contemporâneo

acha chato ser moderno

e chatas as máscaras modernas

que ignoram a história.



Eu não sei se devo escrever

se versos são enigmas ou achados,

mas essa lua de ateliê

mas essa rua sem saída

mas essa vida que passa ao largo.



Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


CÓDIGO POSTAL


Faz tempo que me mudei.
Às vezes mudo e não falo nada a ninguém.
Nada me endereça.
Sou destinatário de todas as entregas equivocadas.

Não gosto de mergulhar em mim.
O sal do pensamento é grosso.
No fundo sou um sujeito que não dá pé.
Por isso cada mergulho é um naufrágio.
E não faz bem à saúde
naufragar todos os dias.



Ronaldo Costa Fernandes





    Vejamos um exemplo de poesia  contemporânea  de Ronaldo Costa Fernandes, escritor de primeira linha. Algumas áreas semânticas se desenvolvem. Primeiro a do título, com mudar, endereçar, destinatário e entrega; depois a de mar, com mergulhar, sal, dar pé, e naufrágio. Ambas são tratadas metaforicamente.

   Mudar é mudar de endereço e mudar como pessoa, unindo as relações de exterior e interior. Desta forma, os versos adquirem ambiguidade: “Às vezes mudo e não falo nada a ninguém”.  A princípio, o verso seria lido como mudar de endereço, mas por que não lê-lo também como mudar internamente?

     A expressão coloquial “dar pé”  é usada de modo inesperado. Dizemos que o mar não dá pé, quando é fundo, ou “dar pé” pode significar ser viável. Ser um sujeito que não pé pode ser um sujeito com profundidade ou inviável. A duplicidade de sentidos justifica o termo naufrágio.

O poema termina com outra expressão coloquial “fazer bem à saúde”. E o dito ( naufragar todos os dias não faz bem à saúde) que pareceria óbvio adquire um frescor, uma surpresa que caracteriza o que chamamos de poético.

    Notemos como deste modo uma temática séria é apresentada com bom humor e inteligência.





Marcus Vinicius Quiroga

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Tecendo a Manhã
1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 João Cabral de Melo Neto


    Embora Cabral fizesse questão de dizer que não gostava de música, usou exaustivamente na segunda parte  do poema a alietração do fonema /t/. Faça um poema em que haja o recurso da aliteração (repetição de um fonema consonantal) com finalidade expressiva.

segunda-feira, 30 de julho de 2012


Hölderlin   Nelson Ascherp/ Antonio Medina Rodrigues


Luz não se vê tão límpida
quanto, inundando a casa,
aquela que extravasa
fugaz de qualquer lâmpada
que, de repente, exalte-
-se e atinja, por um átimo,
à beira do blecaute
mais último, seu ótimo.
Cega ao fulgor, a orelha
talvez capte de esguelha
um ultra-som que, esgar-
çador como um lamento,
provém do filamento
no afã de se queimar.

Escreva um poema que capte um momento fugaz como o do exemplo acima.

Reflexão nº1

Murilo Mendes

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.


Faça um poema motivado pelo último verso deste texto.
Não é obrigatório o seu uso.

quinta-feira, 12 de julho de 2012









Catar Feijão

1.

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.



João Cabral



     A metalinguagem é uma das  características da obra de Cabral, mas não necessariamente a mais importante, como alguns veem. O número de seus poemas de temática social é dos maiores  de nossa literatura, entretanto ele não teve a fama de poeta social.

      Aqui ele compara o ato de escrever ao de catar feijão. Faça um poema em que haja uma comparação (desdobrada como no texto acima) com a criação poética.  

Marcus Vinicius Quiroga

quarta-feira, 11 de julho de 2012


Satélite

Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A lua baça
Paira.

Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,
Desmitificada,

Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e enamorados,
Mas tão somente
Satélite.

Ah! Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas;
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,
gosto de ti, assim:
Coisa em si,
-Satélite.




Neste poema, Bandeira critica a literatura gasta do Romantismo, que tinha na lua um de seus signos mais usados. Faça um poema em que haja uma crítica a alguma estética literária.



 O Autorretrato



No retrato que me faço

- traço a traço -

às vezes me pinto nuvem,

às vezes me pinto árvore…

às vezes me pinto coisas

de que nem há mais lembrança…

ou coisas que não existem

mas que um dia existirão…

e, desta lida, em que busco

- pouco a pouco -

minha eterna semelhança,

no final, que restará?

Um desenho de criança…

Corrigido por um louco!



Mário Quintana



Faça agora seu autorretrato poético.

terça-feira, 10 de julho de 2012




AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos  Drummond de Andrade

A partir do texto de Drummond, faça um poema que termine com um paradoxo, como nestes dois últimos versos a respeito do sentimento de ausência.


segunda-feira, 9 de julho de 2012


Momento Num Café



Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta



Manoel Bandeira



Tendo o texto como exemplo, faça um poema sobre a morte em que elementos

do cotidiano (café, chapéu, gestos)  estejam presentes.

quinta-feira, 5 de julho de 2012




Aos Nossos Filhos    Ivan Lins/Vitor Martins



Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim



Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim



Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim



E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim



Quando lavarem a mágoa
Quando lavarem a alma
Quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim



Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim







Ao Nosso Filho Morena  Oswaldo Montenegro


Se hoje tua mão não tem manga ou goiaba
Se a nossa pelada se foi com o dia
Te peço desculpas, me abraça meu filho
Perdoa essa melancolia


Se hoje você não estranha a crueza
Dos lagos sem peixe da rua vazia
Te olho sem jeito, me abraça meu filho
Não sei se eu tentei tanto quanto eu podia


Se hoje teus olhos vislumbram com medo
Você já não vê e eu juro que havia
Te afago o cabelo, me abraça meu filho
Perdoa essa minha agonia


Se deixo você no absurdo planeta
Sem pique-bandeira e pelada vadia
Fujo do teu olho, me abraça meu filho





Aos Filhos dos Hippies    Oswaldo Montenegro



Onde andam seus pais
Se cansaram da estrada?
Hippies, ingênuos e nus,
A vocês não dizem nada?


O que pensam seus pais
Da ilusão destroçada?
Velhos sonhos azuis
Derramados na calçada


Ainda cantam velhos blues
Sobre seres com asas?
Ou perderam na luz
O caminho de casa?


O que sentem seus pais
Quando alguém acha graça
Dos gentis samurais
Artesões pobres na praça?


O que dói nos seus pais
É a falta de esperança?
Ou seu olho que vai
Onde o deles não alcança?



    Aqui temos três letras que se referem a filhos e portanto a gera-ções. No caso, às gerações de 60, 70, 80, 90, através dos pais ou dos filhos. Por que, então, não fazer um diálogo entre estas gerações tão próximas e às vezes tão distantes, com letras que representem seus valores?

     Nas três obras, notamos o desencanto, a perda, com o passar do tempo, de ideais e ilusões. Nas duas primeiras, a coincidência do pe-dido de perdão e o reconhecimento de que algo diferente poderia ter sido feito. Este verso de Montenegro resume tal sentimento: “Não sei se eu tentei tanto quanto eu podia”.

    De geração para geração, vão sobrando dívidas e sonhos não realizados e, ao mesmo tempo, vamos herdando os caminhos e descaminhos. No século XX, as décadas de 20 e 60 foram as mais marcantes, as que simbolizam as maiores mudanças, independente de preferências subjetivas.

      Como o movimento hippie foi o último momento romântico da História (ainda haverá outros?), sucedido, mas não de imediato, pelo fabricado estilo yuppie de não ser, deu-se o aburguesamento dos jovens de todas as classes. Como diria (ele não disse) Joãozinho Trinta, pobre gosta de tênis Nike.

      A tecnologia dos 80 para cá criou botões e mouses para as mãos de todos e acorrentou-as nas telas e nos aparelhos. O mundo passou a ser o da “última geração”, sem trocadilho.

    O verso “os dias eram assim”, da Vitor Martins, são usados como desculpa ou explicação. Mas, se pensarmos bem, todos os dias de todas as épocas são “assim”. Vá lá que seja: há tempos em que os dias são mais “assim” do que em outros.

    Lamentamos o verso “perdoem a falta de escolhas”, da mesma canção, pois sempre teremos as escolhas e as circunstâncias. Acreditamos, portanto, que sempre há escolhas e dizemos esta frase com o propósito da ambiguidade.

   De falta em falta, vamos para a terceira letra e os versos “O que dói nos seus pais/ é a falta de esperança?”. Sim, a falta de esperança ou a falta do objeto de esperança é marca de gerações.

    Ou talvez seja apenas o que nosso olho não alcança.


Marcus Vinicius Quiroga

segunda-feira, 2 de julho de 2012


     MEIA LEITURA
                                              Sylvia Ripper



   A palavra destrabalhada
que sai alheia, erma dos olhos
quem sabe onde restará acabada
quem sabe dos seus desalinhos?
 
E se soubéssemos aonde iríamos?
não escrever o verso terminado?
ou temer torná-lo letra
torná-lo carne, pele no papel
para ser olhado, mordido
mal lido?


Ou só visto nas entrelinhas
ou só degustado nas entrevozes
e entreouvidos mal dito
este é um verso desmerecido


seria melhor calar sua fronte
e encarcerá-lo nos meandros
das mãos indevidas


ersos, versos,
melhor não escrevê-los
mas se não os fizermos,
se não dermos suas letras,


como vivemos
nós, os incompletos?









         Se rasparmos as duas últimas estrofes, como em um palimpses--to, encontraremos a referência a versos de um poema simples de Vinicius de Morais, consagrado certamente pela temática da paterni-dade. São eles:


“Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?”



         A intertextualidade, que já abordamos outras vezes, é uma das características da poesia nas últimas décadas do século XX e ainda em vigência. No caso temos uma intertextualidade implícita, pois o reaproveitamento dos versos de Vinicius não é evidenciado.   
         O poema, é claro, não é avaliado por esta ou aquela carac-terística, logo ser intertextual não é mérito ou demérito, mas uma forma de identificação. De qualquer modo, isto nos lembra de que a autora tem leituras (não só meias) e de que a literatura não nasce do nada. Há sempre uma relação com a história literária e com o pano de fundo da contemporaneidade.
      Na terceira estrofe, notemos o neologismo “entrevozes” que surge pelo contágio de entrelinhas e entreouvidos. A criação de uma palavra nova também é um exemplo do desvio poético, princi-palmente quando ela introduz nova significação, não sendo apenas um neologismo pelo neologismo. Já na primeira estrofe, temos o “destrabalhada”, que nos surpreende por inverter o desejado por todo escritor: trabalhar a palavra, reescrever o texto, cortar o excesso... Neste primeiro neolo-gismo, feito graças ao uso do prefixo de negação “des”, vemos também a concordância com a palavra “desalinho”, um pouco mais adiante.
      A palavra buscada, seja pela reutilização da palavra alheia
ou pelo fabrico da palavra nova, é sempre o risco do sentido unívoco, equívoco ou plurívoco. Mas homens e poetas, estes incompletos, não têm alternativa. 
                   
                        Marcus Vinicius Quiroga