segunda-feira, 30 de maio de 2011

O POEMA É POR INTEIRO

O Poema

Ou se vive por inteiro
ou pela metade a gente
escreve a vida
que não viveu.

E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.

O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia.

Moacyr Félix


O poeta político Moacyr Félix aqui funde metalinguagem com política (no seu sentido mais amplo). Para nós, da oficina, chamo a atenção para a linguagem conotativa: símile na segunda estrofe e metáforas na terceira, e as áreas semânticas (prisioneiro, cela, cárcere; poema, folha em branco, escreve).
Se, por um lado, temos imagem mais gasta como “chama que queima”; por outro,temos imagem que permite múltiplas leituras,como os dois últimos versos.
Mas no momento o que queremos mesmo é pensar sobre a primeira estrofe, cujos versos lembram a estrutura de um axioma filosófico, uma afirmação, e isto aparece com certa frequência na obra de muitos poetas.
A opção posta por Moacyr tanto serve para a poesia, quanto para a vida. O aqui e agora, o espaço e tempo estão subentendidos, porque não há como separá-los. Ou estamos inteiro nas coisas mais simples e mais corriqueiras ou estamos em falta, e na falta. Ou, triste e ironicamente, como diz o poeta, pela metade cabe a nós escrever sobre metades.
Estar inteiro não é coisa de celebridade, de holofotes, de glamour, afinal a vida não é invenção da mídia; estar inteiro é coisa do dia a dia e do que (permitam-me o jogo de palavras) não se adia. Vida que se adia, sim, é vida pela metade.
Na vida, como na poesia, não há o que se esperar. E aqui (ou seria agora?) lembramo-nos de Ouro sob água, de Suzana Vargas:

...um homem
me perguntava
sobre a melhor forma
de começar um banho
sem reparar no profundo da questão

- Entro devagar
ou de uma vez por todas? Perguntou

-Por todas, respondi
Não há céu ou inferno
que comece devagar


Pela metade talvez equivalha a devagar e inteiro, a de uma vez por todas. E Suzana agora (ou seria aqui?) nos confunde com a sugestão de que a vida também é uma questão de advérbio de modo.
Hoje são feitas a vida e a arte; para amanhã, só o arrependimento e o remorso, matéria que normalmente dá tema psicanalítico ou religioso, mas não poético. Já este parágrafo insinua que a vida tem muito a ver com advérbios de tempo. Seja o advérbio que for, mas de preferência não seja para escrever a vida que não vivemos.









Marcus Vinicius Quiroga

sexta-feira, 27 de maio de 2011

EXERCÍCIOS DA OFICINA

1 – Leia os dois textos abaixo e faça um poema com temática social,abordando algum problema atual do país.

MULHER PROLETÁRIA

Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.
Jorge de Lima

PRIMEIRO DE MAIO

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é vendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã

Chico Buarque



2 – Depois de ler o poema de Drummond,faça outro,também narrativo, com tema livre.


DESAPARECIMENTO DE LUÍSA PORTO

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
À Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada ha longos anos
erma de seus cuidados.

Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva,
que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.

Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta, meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.

Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
(Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.

Se todavia não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco a cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
É Rita Santana, costureira, moça desimpedida.
a qual não da noticia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.

Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898,ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra a tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem, leu no Diário Mercantil,
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.

Pela ultima vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz intima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho da alma.

Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno
filial e do próximo.

Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei.
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
O olhar desviado e terno, canção.

A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providencias.

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a pagina:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá :
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa ( somos pecadores )
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
— ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a cólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum proverá.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos•
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intacta nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
gravada no centro da estrela invisível
Amor.

Carlos Drummond de Andrade


3 - Todo texto tem uma visão de mundo: uns de forma mais explícita do que outros.No caso de Tarefa,de Geir Campos.percebemos os valores humanistas.Faça, então,um poema
em que valores sejam mais facilmente identificados.


TAREFA

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

Geir Campos


4 – Faça mais uma estrofe para o poema de Cecília, mantendo a coerência das ideias.


A ARTE DE SER FELIZ

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
.........................................................


Cecília Meireles


6 – Leia os poemas que tratam da infância e faça outro sobre o mesmo assunto,em versos livres,como os de Drummond ou metrificados, como os de Secchin.


INFÂNCIA

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Carlos Drummond de Andrade


"DE CHUMBO ERAM SOMENTE DEZ SOLDADOS"

De chumbo eram somente dez soldados,
plantados entre a Pérsia e o sono fundo,
e com certeza o espaço dessa mesa
era maior que o diâmetro do mundo.

Aconchego de montanhas matutinas
com degraus desenhados pelo vento;
mas na lisa planície da alegria
corre o rio feroz do esquecimento.

Meninos e manhãs, densas lembranças
que o tempo contamina até o osso,
fazendo da memória um balde cego

vazando no negrume de um poço.
Pouco a pouco vão sendo derrubados
as manhãs, os meninos e os soldados.


7 – Faça versos para o poema de Astrid Cabral, de forma que a continuação faça sentido.


ENSAIANDO PARTIDAS

...........................................................


Na praça São Sebastião galeras de bronze
destinavam-se a longínquos continentes mas
imóveis não singravam ondas de lusas pedras
deixavam-se estar molhadas tão só de chuvas
proas frustradas de horizontes e azuis.
Que estranha calmaria as conjurara, quilhas
vacinadas contra a vertigem dos ventos?
Ou estariam desde sempre fundeadas nas
invisíveis correntes d’água dos séculos?
Dobravam os sinos abafando os frenéticos
pianos a planger nos salões dos sobrados
mas o que sempre se ouvia, pouco importa
se baixo e rouco, era o gargarejar do rio
a vocação de foz e mar drenando fragmentos
de terra, arrastando de roldão os corações.

Astrid Cabral


8- Faça uma paródia do famoso poema de Bandeira.


PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida ineira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
[pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Bandeira


9 – Serenata sintética,como o título já diz ,é um exemplo de poema curto,como vigorou nos anos 60. Faça um poema em que haja também bastante condensação da linguagem.


SERENATA SINTÉTICA

Rua
torta.

Lua
morta.

Tua
porta.

Cassiano Ricardo


10 – Vejamos outro texto de Cassiano Ricardo. Agora temos um de poema metalinguís-tico.Faça, então,outro em que haja questões de metalinguagem.


POÉTICA


1
Que é a Poesia?

Uma ilha
Cercada
De palavras
Por todos
Os lados.

2
Que é o Poeta?

Um homem
Que trabalha o poema
Com o suor do seu rosto.
Um homem
Que tem fome
Como qualquer outro
Homem.


Cassiano Ricardo

POEMAS E PINTURAS

FAÇA POEMAS, MOTIVADO PELOS QUADROS DE MAGRITTE, GOYA, FRIDA
KAHLO E PORTINARI.






















































quinta-feira, 26 de maio de 2011

A LINGUAGEM REFERENCIAL

Poema Brasileiro

No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade


antes de completar 8 anosde idade




Ferreira Gullar



O texto Poema Brasileiro,de Ferreira Gullar, é feito apenas dos versos “No Piauí de cada 100 crianças que nascem/ 78 morrem antes de completar 8 anos de idade”, que se repetem e sugerem uma repetição ad eternum. Os versos se distribuem de forma diferente,valorizando a utilização do espaço em branco da página, como era típico nos 50/60.
Mas o que nos interessa no momento é chamar a atenção para o fato de que este “pequeno” poema é,na verdade,uma afirmação (ou informação) que poderia estar em um livro didático de Geografia ou em um jornal.E, como sabemos, o discurso literário se diferencia dos discursos didático e jornalístico.
Teríamos então aqui uma contradição?
Sabemos também que literário é o uso que fazemos dos textos.Portanto, esta afirmação,em linguagem denotativa, pretende-se poética, por ocupar o espaço do livro e se relacionar com os demais textos. Sim,trata-se de um poema, à primeira vista, estranho, por ser curto, informativo, didático e referencial. Levando-se, no entanto, a época em que foi feito/publicado (início dos anos 60),o pano de fundo histórico justifica a sua criação e a sua denúncia. Não sabemos hoje quantas crianças morrem no Piauí antes de completar 8 anos de idade, embora saibamos quantas pessoas morrem no Pará, por defenderem causas ambientais. Chico Mendes, no Recreio dos Bandeirantes, é nome de parque, mas no Pará talvez devesse ser nome de cemitério.
É claro que o é dito neste texto prevalece sobre o como é dito, como prova a referencialidade das palavras.


P.S. Como exercício, poderíamos recortar frases dos jornais, semelhantes às escolhidas por Ferreira Gullar. Talvez tenhamos material para um livro inteiro, para espanto e tristeza.








antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade


Ferreira Gullar

segunda-feira, 4 de abril de 2011

POESIA E SOLIDARIEDADE

Tecendo a Manhã

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 1 de abril de 2011

FIGURAS DE LINGUAGEM

Linguagens


Notei que o vôo negro da hipálage
não tinha o mel dos lábios da metáfora,
e mais notara, se não fora a enálage,
e mais voara, se não fosse a anáfora.

Chorei dois oceanos de hipérbole,
duas velas cortaram a metonímia.
O pé da catacrese já marchava
no compasso toante dessa rima.

Verteu prantos a anímica floresta,
mas entramos dentro do pleonasmo,
‘stamos em pleno oceano da aférese...

Vai-se um expletivo, outro e outro mais...
Os poetas somos muito silépticos;
os poemas, elípticos demais.


Antonio Carlos Secchin

quarta-feira, 23 de março de 2011

POEMA DE FIM DE VERÃO

SONETILHO DE VERÃO

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

Paulo Henriques Britto

sexta-feira, 18 de março de 2011

OFICINA DE POESIA NO SIMPRO TERÇA-FEIRA DE MANHÃ

OFICINA DE POESIA NO SIMPRO

(RUA PEDRO LESSA 35, 3º ANDAR, CENTRO)


COM MARCUS VINICIUS QUIROGA

POETA COM 12 LIVROS PUBLICADOS, DOUTOR EM LITERATURA BRASILEIRA, CRÍTICO E ENSAÍSTA


INÍCIO: DIA 22 DE MARÇO

NOS DIAS 22 E 29 DE MARÇO; 5, 12, 19 E 26 DE ABRIL
SEMPRE ÀS TERÇAS-FEIRAS, DAS 9H30 ÀS 12H30

AS LINGUAGENS CONOTATIVA E DENOTATIVA, AS DIFERENÇAS ENTRE POESIA E PROSA; AS DIVERSIDADES SEMÂNTICA E SINTÁTICA
DOS POEMAS; CRIAÇÃO DE TEXTOS E COMENTÁRIOS; LEITURA E ANÁLISE DE POETAS CONTEMPORÂNEOS.

VALORES ESPECIAIS PARA ASSOCIADOS DO SINDICATO E DE OUTRAS ENTIDADES

MAIS INFORMAÇÕES: 3262-3440 E 3262-3439

ou no site www.simpro-rio.org.br

OBS. COMO NÃO HÁ PRÉ-REQUISITO, O ALUNO PODE ENTRAR MESMO DEPOIS DO INÍCIO DA OFICINA

METÁFORAS DE SOL

UM GOSTO DE SOL

Milton Nascimento/Ronaldo Bastos

Alguém que vi de passagem
Numa cidade estrangeira
Lembrou os sonhos que eu tinha
E esqueci sobre a mesa
Como uma pêra se esquece
Dormindo numa fruteira
Como adormece o rio
Sonhando na carne da pêra
O sol na sombra se esquece
Dormindo numa cadeira
Alguém sorriu de passagem
Numa cidade estrangeira
Lembrou o riso que eu tinha
E esqueci entre os dentes
Como uma pêra se esquece
Sonhando numa fruteira


PROMESSAS DO SOL

Milton Nascimento e Fernando Brant

Você me quer forte
E eu não sou forte mais
Sou o fim da raça, o velho que se foi
Chamo pela lua de prata pra me salvar
Rezo pelos deuses da mata pra me matar
Você me quer belo
E eu não sou belo mais
Me levaram tudo que um homem podia ter
Me cortaram o corpo à faca sem terminar
Me deixaram vivo, sem sangue, apodrecer
Você me quer justo
E eu não sou justo mais
Promessas de sol já não queimam meu coração
Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?
Que tragédia é essa que cai sobre todos nós

quinta-feira, 17 de março de 2011

GUARDANAPOS DE PAPEL

GUARDANAPOS DE PAPEL

de Leo Masliah
tradução de Carlos Sandroni

Na minha cidade tem poetas, poetas,
Que chegam sem tambores nem trombetas, trombetas,
E sempre aparecem quando menos aguardados, guardados, guardados,
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados.
Saem de recônditos lugares no ares, nos ares,
Onde vivem com seus pares seus pares, seus pares,
Seus pares e convivem com fantasmas multicores, de cores, de cores,
Que te pintam as olheiras e te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas partidas, partidas,
Entre mortos e feridas, feridas, feridas,
Mas resistem com palavras, confundidas, fundidas, fundidas,
Ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas.

Não desejam glorias nem medalhas, medalhas, medalhas,
Se contentam com migalhas, migalhas
Migalhas de canções e brincadeiras com seus versos dispersos, dispersos,
Obcecados pela busca de tesouros submersos.
Fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos,
Que jamais são alcançados cansados, cansados,
Nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem, escrevem,
O que sabem que não sabem e o que dizem que não devem.
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas,
Como se fossem cometas, cometas, cometas,
Num estranho céu de estrelas idiotas e outras, e outras,
Cujo brilho sem barulho veste suas caldas tortas.

Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas,
Esvaindo-se em milhares, milhares,
Milhares de palavras retorcidas e confusas, confusas, confusas,
Em delgados guardanapos, feito moscas inconclusas.
Andam pelas ruas escrevendo e vendo, e vendo,
Que eles vêm nos vão dizendo, dizendo,
E sendo eles poetas de verdade enquanto espiam e piram, e piram,
Não se cansam de falar do que eles juram que não viram.
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas,
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas,
Lançadas ao espaço e o mundo inteiro, inteiro, inteiro,
Fossem vendo pra depois voltar pro Rio de Janeiro.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O ESCRITOR É ALGUÉM QUE TEM ALGO A DIZER!




Agora em janeiro, em uma seleção para um cargo de engenheiro solicitaram uma redação com tema livre aos candidatos e a maioria escreveu sobre as enchentes na região serrana, reproduzindo as matérias saídas nos jornais escritos e televisivos. Estes foram eliminados, pois a empresa queira pessoas que pensassem, não papagaios.
A primeira pergunta que um escritor deve se fazer é esta: Tenho algo a dizer? Se você quer ser escritor porque, por alguma secreta razão, acha o personagem simpático, e não tem o que dizer, é melhor escolher outro papel. Se diante da página em branco do computador ou do caderno, você se pergunta o que está fazendo ali e diz que não tem ideias, é melhor usar o computador ou o caderno para outra finalidade.
Se você tiver paciência consigo mesmo, verá certamente que tem algo a dizer, que tem um modo particular de olhar o mundo e compreendê-lo e que poderá escrever sobre isto. Você não está mais nas salas de aula, fazendo redação para receber uma nota. Agora foi você quem escolheu esta situação: a folha em branco a sua frente e o teclado.
Sabemos que a redação é um dos bloqueios clássicos do aluno, porque ele se vê diante de si mesmo e não há escapatória. Consciente ou inconscientemente, ele sabe que a linguagem trai e, portanto, revela algo sobre ele, como, por exemplo, as suas faltas, o seu vazio, o seu desinteresse por sua vida e pelo mundo.
A inércia linguística não é gratuita: quem não consegue fazer uma redação com tema livre é porque nada tem a dizer, ou seja, é um “silenciado”. O escritor, ao contrário, é alguém que tem a urgência de dizer algo e de uma forma diferente, de uma forma literária.
Uma oficina serve para isto, para o exercício de pensar e de dar forma ao pensamento. A visão de mundo vem antes da escrita, a reflexão sobre o que acontece ao redor ocorre antes da aprendizagem de técnicas da literatura. Um escritor, como o engenheiro do primeiro parágrafo, não pode repetir o discurso alheio, pois se distingue por seu pensar diferente. O estilo não é só uma questão de linguagem, mas também de olhar, de pensar e de escolher.


Marcus Vinicius Quiroga

domingo, 13 de março de 2011

PALAVRAS POÉTICAS




Houve época em se dizia haver palavras poéticas e não-poéticas. Estas palavras poéticas também eram ditas literárias, como se existissem só para serem usadas em textos de ficção e havia até quem acreditasse que hodierno era melhor do que moderno. É claro que há muito tempo não se usa hodierno e que esta palavra seria mal vista em textos literários nos tempos hodiernos, queremos dizer, modernos.
As palavras que caem em desuso, depois do Modernismo, passaram a não ser bem-vindas na literatura, a menos que haja razões de estilo ou de expressão que a justifiquem. A influência da linguagem oral cresceu muito e afastou do vocabulário escrito palavras que se tornaram “pedantes” e “esnobes”. Isto é um fato ocorrido e não uma regra para ser seguida. Cabe ao escritor sempre a sensibilidade para escolher suas palavras e a responsabilidade por tê-lo feito.
Desde o início do século passado, toda palavra pode ser poética, dependendo da sua utilização. Augusto dos Anjos, por exemplo, inovou justamente por fazer uso de um vocabulário que não frequentava a poesia. Seus termos científicos e difíceis causaram um estranhamento, que foi uma das marcas de seu estilo, pois destoavam bastante das expectativas simbolistas e parnasianas.
Da nossa parte admitimos uma idiossincrasia, a de preferir certas palavras em detrimento de outras por razões totalmente subjetivas e não explicáveis. Palavras e mesmo letras exercem sobre nós uma atração por motivos gráficos e fonéticos que não saberíamos dizer por quê. A preferência pela letra itálica ao tipo normal seria um exemplo. Ou seja, é uma questão de gosto, de particular sensibilidade.
É dito que palavras com muitas sílabas se prestam menos à poesia e à letra de música. De certa forma, também pensamos assim e teríamos dificuldade em usar a palavra “idiossincrasia”, que aparece no parágrafo anterior, em um poema, o que não significa que outro não possa ou não deva fazê-lo.
Há também palavras que, por de serem de áreas semânticas muito específicas, nos parece um pouco estranhas em um texto poético. Por exemplo, duas palavras da moda, lidas diariamente em jornais, como “sustentabilidade” e “visibilidade”, em tese, não nos agradariam em poemas.
Tentemos ser mais claros: defendemos o princípio de que não existem palavras poéticas como uma regra imutável, mas na prática reconhecemos que as “subjetividades” dos poetas elegem algumas palavras e excluem outras. Ou, de outro modo, a seleção vocabular é fundamental no texto literário, e mais ainda na poesia, não devendo, portanto, ser relegada a um segundo plano, como se as ideias bastassem, e não as palavras que as incorporam.
Recomendamos que o autor leia em voz alta seu poema e sinta se as palavras soam bem ou não. Sem dúvida, é a subjetividade do seu “ouvido” que vai determinar este soar bem, mas a leitura de bons poetas e o exercício de reler os próprios poemas de maneira crítica vão ajudar bastante.

Marcus Vinicius Quiroga

sábado, 12 de março de 2011

O NOVO LIVRO DE CARLOS NEJAR


O poeta Carlos Nejar lançará no dia 24, às 19h, na Livraria Travesa de Ipanema, a edição revista e ampliada de História da Literatura Brasileira, leitura obrigatória e prazerosa de todo escritor, iniciante ou experiente.
Recomendamos a entrevista publicada na edição de hoje, 12 de março, no suplemento literário Prosa & Verso, feita por Miguel Conde, para nos familiarizarmos com as ideias do escritor e despertamos a curiosidade por esta sua história de nossa literatura.
Se a melhor oficina é a leitura dos grandes autores, entrar em contato com eles por intermédio de um ensaísta da envergadura de Nejar, é mais do que vantajoso.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A IRONIA E O CONTEXTO

Vence na Vida quem diz Sim

Chico Buarque / Ruy Guerra


Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te dói o corpo, diz que sim
Torcem mais um pouco, diz que sim
Se te dão um soco, diz que sim
Se te deixam louco, diz que sim
Se te tratam no chicote, babam no cangote
Baixa o rosto e aprende o mote, olha bem pra mim
Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te mandam flores, diz que sim
Se te dizem horrores, diz que sim
Mandam pra cozinha, diz que sim
Chamam pra caminha, diz que sim
Se te chamam vagabunda, montam na cacunda
Se te largam moribunda olha bem pra mim
Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te erguem a taça, diz que sim
Se te xingam a raça, diz que sim
Se te chupam a alma, diz que sim
Se te pedem calma, diz que sim
Se já estás virando um caco, vives num buraco
E se é do balacobaco olha bem pra mim
Vence na vida quem diz sim


Esta letra gravada nos disos 70 tinha um sentido particular na época, levando-se em conta o pano de fundo histórico ou pensando-se em seu conteúdo de forma atemporal. O título proverbial é irônico e os versos mostram a inversão típica da ironia, ou seja, diz o contrário do que quer dizer. “Dizer sim” no caso signfica a acomodação, a sujeição a tudo, a negação de si mesmo, em troca apenas talvez da sobreviência.
Mas podemos estender o sentido desta máxima e interpretar o que vem a ser “vencer”. Vencer pode ser mais do que sobreviver, pode em outros caso ser mesmo ter êxito, fazer sucesso, subir na vida e significados afins.
O contexto mudou. Não estamos mais nos anos 70, nem sob o regime de ditadura. Mas os valores sociais não mudaram muito. Alguns até pioraram. O romantismo hippie acabou há bastante tempo e foi só um intervalo na cena burguesa das sociedades capitalistas. Ou seja, vencer continua sendo o verbo preferido destas sociedades, embora talvez não saibam exatamente o que isto queira dizer. Vencer pode significar invadir países e destruir a sua população, ou exportar mais do que importar, ou ter mais votos do que os outros candidatos, ou conseguir uma comissão, um cargo no governo, um apadrinhamento, um reconhecimento ‘oficial’, uma exposição favorável na mídia etc
De um modo geral, o verbo não lembra valores espirituais ou inte-lectuais, pouco encontrados nas diferentes classes, por razões diversas. As indústrias ditam as regras, impõem a publicidade, fazem a divugldação se seus produtos, sejam eles pessoas ou coisas.
Quem diz sim tem mais chance de ocupar um lugar no pódio. Se a letra já era irônica, a história, com suas inevitáveis mudanças, tornou-a mais irônica ainda. O sim de hoje já não é necessariamente o sim de ontem.
A ironia, portanto, não se limita a palavras, mas tem uma relação direta com o seu momento e o seu espaço. Muda-se o contexto, muda-se a ironia.
E esta letra, que um dia nos trouxe um leve sorriso de deboche, hoje talvez nos dê certa tristreza.


Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 10 de março de 2011

OFICINA DE POESIA NA ESTAÇÃO DAS LETRAS

Oficina de Poesia na Estação das Letras

Oficina de Poesia (introdução)
Criação de textos literários com comentários críticos em paralelo com leitura e análise de autores nacionais contemporâneos. Estudo das diferenças entre o texto literário e o não-literário; as linguagens conotativa e denotativa; o verso livre e o metrificado; o verso branco e a rima; o estudo das áreas de significação e da diversidade temática e a estrutura de um texto poético.

De 11/03 a 01/07 6as. feiras das 16h30 às 18h20

Prof.: Marcus Vinicius Quiroga - Poeta, contista, crítico, Doutor em Literatura Brasileira, membro do PEN Clube do Brasil e da Academia Carioca de Letras. Autor de 11 livros de poesia, como O xadrez e as palavras, Campo de trigo maduro e Manual de instruções para cegos. Recebeu prêmios da CBL (Jabuti), da Fundação Biblioteca Nacional e da UBE (Rio e São Paulo), entre outros.
Valores: 4 x R$230,00


Estação das Letras - Rua Marquês de Abrantes, 177 - Loja 107 e 108
Flamengo - Rio de Janeiro - RJ :: CEP: 22230-060
Telefone: (21) 3237-3947 (21) 3237-3947

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CLASSIFICADOS E POESIA



CLASSIFICADO

Procuro meeiro
disposto ao mundo
que descubra em mim
um cubo, explorando as doze faces
de dois olhos.
Procuro companheiro
disposto a tudo
que agudo se cure
surdo, ouvinte do som líquido
dos espasmos
Procuro aventureiro
disposto ao absurdo
que venha e se embrenhe
fundo,
descerrando o obscuro
de olhos rasos.
em troca, meio o mundo
do encantado.


Rita Moutinho


AVISO

Desfiz noivado
vendo sem uso
almofadas soltas
jogo
mesinha mármore rosa
cama sofá arquinha


Antonio Carlos Secchin

Ainda do livro Sete movimentos da alma, de Rita Moutinho, tiramos o texto Classificado, que, como Aviso, de Antonio Carlos Secchin, mostra o uso da linguagem de jornal na poesia. Tal fato nos remete inevitavelmente ao Poema tirado de uma notícia de jornal, de Manuel Bandeira.
O texto resgata palavras típicas de anúncios sentimentais, normalmente bastante objetivos, nos quais é feita a descrição do tipo desejado. Aqui, ao contrário, a linguagem é subjetiva e metafórica, ou seja, permite várias interpretações, o que a distingue do uso jornalístico, quando a leitura unívoca é o esperado.
As supostas afinidades entre quem põe o anúncio e quem responde a ele não são “realistas”, como descobrir no outro um cubo e lhe explorar as diversas faces. Estamos, sim diante da função poética obtida graças à transformação dos termos com sentido referencial.
Já no segundo texto, bem mais enxuto e lacônico, a linguagem característica de anúncio é mantida, sendo seu “recorte” da realidade a intervenção do autor que transfere o texto jornalístico para o espaço do literário. Enquanto o primeiro é lírico e tem o tom da espera/esperança de um encontro amorosos, o segundo é sutilmente irônico e iguala o noivado desfeito ao inventários das coisas de um enxoval sem uso.


Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

RITMO, UM EXEMPLO DE



Canção para Cecília

Cecília
marulha mergulha
ondeia
sussurra cicia
nos versos, nos ais
Poeta desmata
desvenda reata
mistérios palavras
o isso ou aquilo
o pouco e os demais.
Cecília do mar
fôlego do ar
se faz natureza
marulha mergulha
sussurra cicia
Cecília que paz?
Luta Cecília
luares pesares
história passado
desata que nós?
Cecília
marulha mergulha
ondeia
sussurra cicia
censura procria
nos versos, ais.


Rita Moutinho


Muitas vezes quando pensamos no ritmo de um poema, lembramo-nos apenas da métrica, do número exato de sílabas e das pausas, como se não houvesse ritmo no verso livre. Nesta homenagem à poeta Cecília Meireles, que, entre outras características, marcou sua obra pela intensa e particular musicalidade, Rita Moutinho deu-nos um belo poema, em que o ritmo, para fazer jus à homenageada, é fundamental.
Aqui temos basicamente versos em redondilha menor, que, a exemplo da redondilha maior (sete sílabas), são sempre usados em canções populares, justamente por seu ritmo mais marcado. Observemos, então, quais os recursos de que o autor dispõe para valorizar a construção rítmica do texto, para torná-la mais lenta ou mais acelerada. No caso, os versos curtos (cinco sílabas) criam uma leitura cadenciada e mais veloz, como se o poema tivesse que ser dito de um fôlego só.
Versos curtos, palavras curtas, repetições, rimas, pontuação, tudo serve para determinar o ritmo de um texto. E até em um poema de versos livres, a alternância de números de sílabas e a disposição das palavras no espaço em branco da página orientam a leitura e, consequentemente , o ritmo.
Como Manuel Bandeira chamou a atenção, todo poema tem ritmo, e a diferença está na intenção e na utilização das palavras e das medidas para a que ele seja obtido e tenha este ou aquele efeito.

Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ESPECULAÇÕES EM TORNO DO OUTRO MESMO




Eu e o outro.
Então, quem sou?
Eu, o outro?

Dúvida e imprecisão.
O outro está longe
não pode ser eu.

O acesso ao outro
é esforço inútil
pois que o trago dentro.

O outro não é alguém
em quem vou me encarnar.
Já está dentro de mim.

Olha com meus olhos
mastiga com meus dentes.
Logo, não usa dentadura.

Caminha com meus pés.
Acorda com fome e toma
café com leite desnatado.

O outro vai ocupando o lugar
do meu lugar, e eu, escapando
sem querer, piso nos seus passos.

O outro me ocupa e me provoca.
Só me resta saber se ao morrer
quem vai: eu, ou ele, o outro.


Dirce de Assis Cavalcanti



Ainda aproveitando o instigante As linhas do vento da poeta e contista Dirce de Assis Cavalcanti, hoje selecionamos um texto que fala de uma questão recorrente na literatura: o outro, o duplo. Lembramos que a poucas postagens, vimos o último livro de Ferreira Gullar, no qual o duplo não só dá título a um poema, mas também aparece vários vezes como tema e até na estrutura das composições, em sua maioria duais.
O outro aqui não é um objeto sobre o qual o eu poético se debruce para especulações, pois está dentro. O outro é o próprio sujeito. E, se nos permitirem o jogo, diríamos que se trata de o “outro poético”, e que se identifica com o eu do poema, ao fazer as mesmas ações.Mas não de forma especular ou mimética, posto que não está do outro lado, e , sim, porque usa os mesmos dentes, os mesmos pés, as mesmas mãos. O outro se encontra latente no eu e às vezes se manifesta. Neste momento como diferençar este daquele?
Não importa achar uma resposta, até porque não nos parece possível, mas reconhecer a duplicidade, a alteridade. E ainda que haja algum conflito, o embate não é frontal. O outro vai ocupando aos poucos, como o gerúndio sugere, o eu, que, tentando escapar, pisa em seus passos. Ou nos próprios passos?
Não fugimos do outro que em nós habita, nem nos descartamos dele, uma vez que ele faz parte de nós e morrerá conosco. A menos que nas mortes simbólicas, e às vezes não menos difíceis, este alter ego nos substitua, também simbolicamente, e morra em nosso lugar.
Quando o outro parte é para dar lugar ao eu que permanece, renovando-se, na incessante busca da identidade, esta movediça.


Marcus Vinicius Quiroga

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A POESIA PENSA

Nada é fixo. Estável.
Parado.
É preciso coragem
para inventar a vida
manter o equilíbrio
quando o mar picado
ameaçar o navio.


Não deixar-se cair ao mar.

Manter-se no pedestal
na inclemência do vento
nos tremores violentos
que sacodem o chão
onde se pisa.

Maleável, elástico,
acrobata, pisar
na corda bamba
e descobrir que é você
quem a agita.

Você é a máquina
que decide:
se vai parar ou seguir.



Dirce de Assis Cavalcanti


A autora acaba de lançar seu quarto livro de poemas pela 7 Letras, As linhas do vento, do qual retiramos este texto. Aqui também aparece o vento do título, que, além de ter as linhas normalmente incertas, tem agora a ameaça de sua força que tira as coisas do lugar e desiquilibra "tripulantes e navio". A afirmativa inicial e os vários infinitivos (inventar,manter, ameaçar,deixar, cair, manter,pisar, descobrir, parar e seguir)sugerem uma generalização de uma ideia, uma reflexão que diz respeito a todos.
Depois de uma premissa (Nada é fixo), vamos imediatamente para uma conclusão (É preciso coragem para inventar a vida). Mas o final desta conclusão (descobrir que é você quem a agita) leva de volta à premissa. Nada é fixo por sua causa. Isto é, você é também uma espécie de vento, pois é você mesmo quem agita a corda bamba.
Na última estrofe a imagem que mais nos agrada: o homem como uma máquina que decide. Máquina, porque as decisões se sucedem. Mesmo que você pare, terá que tomar uma decisão mais à frente.O uso poétido dos dois pontos interrompendo a oração subordinada bifurca a opção: parar ou seguir.E poderíamos ler também seguir por aqui, ou por ali, ou por...
A criação de um texto, seja um poema apenas ou um romance inteiro, é sempre também uma questão de livre-arbítrio. Escrever deste jeito significar não escrever de vários outros jeitos. Há sempre uma estrada escolhida, e a repetição desta escolha é que forma o estilo.
Se a vida é plástica, como querem alguns pensadores, e você, maleável e elástico,o vento não o jogará ao mar. Mas o desequilíbrio permanecerá, porque ele é inerente à condição humana. Entretanto, não se desespere: você é quem decidiu parar ou seguir, você é quem decidiu que fosse assim...
Como homem ou escritor, estamos sempre respondendo por nossos atos, por nossas palavas, enfim, por nossas decisões.Sigamos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

HORA DO RECREIO: VARIAÇÕES SOBRE UM VELHO TEMA

DUPLO

A arte é longa;
a vida, breve.
A folha é onde
o poeta se esconde
ou se escreve?


CONTEMPORÂNEO

A arte se alonga
e a vida caminha no calçadão.


DÚBIO

A arte é longa;
a vida, comprida.



METALINGUÍSTICO

Encontro no dicionário
para o verbete breve
os termos resumido, sucinto, lacônico,
rápido e curto
mas a poesia não admite sinônimos


MODERNISTA

A arte é eterna.
A vida? Perna
pra que te quero!


PARANAENSE

Na arte curto um haikai.
Na vida: menos é menos, mais é mais!


AFORÍSTICO

A arte é minimalista;
a vida não dá a mínima.


REFLEXIVO

A arte é para sempre;
a vida nunca tem tempo.


DIVERGENTE

A arte porta o tempo;
a vida parte.


VANGOGHIANO

Para tão longa arte
se abrevia a vida.


SUBJETIVO

A arte é longa.
A vida: Breve.