terça-feira, 30 de agosto de 2011

EIS O POEMA SEGREDO. NÃO CONTE.



SEGREDO

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

Carlos Drummond de Andrade


O texto de Drummond serve para muitas discussões. Poderíamos parar no primeiro verso e aceitar que de fato a poesia seja incomunicável ou, discordar, e pensar que é só (só?) uma afirmação poética e que, portanto, não deve ser lida literalmente.
Ou poderíamos refletir sobre a incomunicabilidade. Seria a poesia mesmo incomunicável? O que alcança o leitor? Ou há textos mais (in)comunicáveis do que outros?
Um misantropo de plantão diria que tudo é incomunicável, que não há diálogos, só monólogos. Mas deixemos a misantropia para Molière. E exercitemos a nossa tentativa de comunicação.
Já falamos na “estrutura” do poema como seu esqueleto, sua planta baixa e que ela se dá normalmente por algum tipo de repetição, em cuja forma o conteúdo vai se evidenciando. Por exemplo, no caso, temos uma hipótese (ouço dizer, tudo é possível, suponha) e um imperativo negativo que se repetem. E é nesta negação que reside a força do texto, especialmente quando, na última estrofe, os versos preparam para uma conclusão que é desfeita: os homens pediriam perdão, mas você não deve fazê-lo.
Tortos e gauches em nossos cantos, não pediremos perdão porque a história é uma escolha e como tal não deve ser perdoada.









Marcus Vinicius Quiroga

domingo, 28 de agosto de 2011

AS PAREDES DA LINGUAGEM





A palavra é vista como revelação, e até como epifania. Mas muita vez serve para esconder. Sim, mais esconderijo do que refúgio. Ele tece meia dúzia de metáforas e pronto: o mundo permanece o mesmo e o escritor se sente com um ar de inteligência diante das coisas.
Na análise (ou nas análises) aprendemos que a linguagem trai e que discurso algum é inocente. O discurso é, afinal, o material primeiro da sessão. Antes de nos levar a outros mundos, ele nos leva a ele mesmo. Não se trata de um embate entre dois discursos, o do analista e do analisando, mas de um encontro. Até porque o analisando que quiser escapar pelas palavras é quem perde.
Por mais hábil que seja, o escritor também não engana o leitor. Seu texto aparentemente simbólico pode receber aplausos e afagar sua vaidade. Depois é que são elas.
Nada se faz com aquelas imagens tão atraentes na folha do papel. Do lado de fora a vida não muda. As segundas-feiras são inevitáveis e estão lá sempre à nossa espera.
Matáforas não deveriam servir para adiar a vida. O Fernando, ele-mesmo, morreu no dia 30 de novembro de 1935. O que ainda temos hoje são os poemas de Pessoa, um ser bem mais fictício do que ele supunha.
A linguagem serve não só para os belos poemas líricos escritos e não escritos, serve também para os equívocos, para os textos dúbios, para as frases pretensamente reparadoras do mundo.
Antes as palavras-espelho do que as palavras-biombo.


Marcus Vinicius Quiroga

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Fishing :
(R. Shindell)

Please have a seat. I'm sorry I'm late
I know how long you've had to wait
I did not forget your documents
No time to waste, why not begin?
Here's how it works, I've got these faces
You give them names and I won't deport you
Make sure you face my tape recorder

Make no mistake, this fountain pen
Could put you on a plane by ten
And by the way, your next of kin
I know which house she's hiding in
So now that you know whose skin you're saving
In this photograph, who's this one waving?
I think you know, so speak up, amigo

It says here that by trade you were a fisherman
Well I'll bet you Indians can really reel them in
And if you get the chance
You should try to get up to Lake Michigan
Well maybe, but then again....

Where were we then? Is he your friend?
Well I recommend that you look again
Where does he stay? What is his name?
There is no shame. He'd do the same
So what do you say? I don't have all day
It's up to you. Which will it be
Good citizen or poor campesino?

My dad used to rent us this place in Ontario
He showed us how to cast the line and tie the flies
He used to say that God rewards us for letting the small ones go
Well maybe, but I don't know
Anyway, it's easy to bite. You just take the bait
You can't snap the line
Don't fight the hook
Hurts less if you don't try to dive

Senor, as you know I was a fisherman
And how full the nets came in
We hauled them up by hand
But when we fled, I left them just out past the coral reefs
They're waiting there for me
Running deep



Ouvindo Joan Baez, o ritmo da canção Fishing me fisgou e fez com que eu prestasse atenção na letra. Ao querer entender o porquê do título, encontrei a duplicidade da imagem em fishing. Trata-se de pesca em sentidos diversos: um literal e outro, metafórico.
A letra é um diálogo entre dois sujeitos: um “pescou” o outro e em seu interrogatório fala praticamente sozinho, já que ele é o “pescador”; o “peixe, ameaçado e coagido, permanece calado por mais tempo.
As palavras adquirem significados que navegam de verso para verso e a canção, com um ritmo que destoa da letra, dá um tom irônico ao que é dito. De outro modo, a música aqui torna-se significante de outro significado. Imagine-se dançando ao som de uma letra que trata de ameaça e violência. Você conseguiria?
Ficam a ordem e o medo no ar:

Anyway, it's easy to bite. You just take the bait
You can't snap the line
Don't fight the hook
Hurts less if you don't try to dive

Será que o rock dançante não tem a intenção de mostrar a alienação de quem escuta sem ouvir o que é dito? Que tal uma reportagem sobre as recentes mortes no Pará com o som disco
do famigerado e brega Abba do final dos 70?
E tome polca.
Pescou?


Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

OFICINA DE POESIA NA ESTAÇÃO DAS LETRAS

A Poesia e suas técnicas

Ementa
O curso é oferecido em módulos independentes e complementares. O propósito é familiarizar o aluno com as diversas técnicas da escrita, tendo seu foco voltado para o processo criativo e ficcional. Cada um dos cursos tem duração de quatro aulas (12hs).

Professor
Marcus Vinicius Quiroga -Poeta, contista, crítico, Doutor em Literatura Brasileira, membro do PEN Clube do Brasil e da Academia Carioca de Letras. Autor de 11 livros de poesia, como O xadrez e as palavras, Campo de trigo maduro e Manual de instruções para cegos. Recebeu prêmios da CBL (Jabuti), da Fundação Biblioteca Nacional e da UBE (Rio e São Paulo), entre outros.

Agenda
Período e horários

De: 06/08 a 27/08 sábados das 10h às 13h
Carga horária – 12hs / aula

Valores

R$300,00

Inscrições:
As reservas podem ser feitas:

- pelo telefone (21) 32373947

- no local: Rua Marquês de Abrantes, 177 – Ljs 107/108 (Flamengo)

Descontos:

- Professores e universitários têm 50% de desconto na maioria dos cursos. As vagas são limitadas.


Certificados:
Serão fornecidos certificados aos participantes que obtiverem 75% de presença.
.
Estação das Letras - Rua Marquês de Abrantes, 177 - Lojas 107/108 Flamengo - Rio de Janeiro - RJ :: CEP: 22230-060 :: Telefone: (21) 3237-3947

quarta-feira, 13 de julho de 2011

QUEM TEM MEDO DA TÉCNICA?

A Quevedo

Hoje que o engenho não tem praça,
que a poesia se quer mais que arte
e se denega a parte
do engenho em sua traça,

nos mostra teu travejamento
que é possível abolir o lance,
o que é acaso, chance,
mais: que o fazer é engenho.

João Cabral

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O LITERÁRIO E O "LITERÁRIO"

ALGUNS TOUREIROS

João Cabral de Melo Neto


Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LEIAM PORTAIS, DE VÂNIA DE MAGALHÃES

PARQUE VAZIO


Parque vazio
momentos de chuva
hoje as árvores não cantam
Não há vento
Tudo queda inerte
Trago em silêncio
apatia e luz
dores da inércia
Tumulto solitário

Os anjos dourados
não nos visitam mais
Sobre os meus ombros
a manhã cinzenta desliza
Não há ninguém nos gramados
Chove como se fosse
a primeira tempestade

Vânia Magalhães



No sintagma “parque vazio” uma oposição: parque sugere espaço aberto e amplo, portanto, de muitas pessoas; parque é lugar de pra-zer, de alegria; parque pode ser parque de diversões e, então, lugar de festa e de infância...No entanto, este parque se encontra vazio e repleto de negações (árvores não cantam; não há vento;anjos não nos visitam; ninguém nos gramados), além de palavras que indicam imobilidade (inerte, apatia, silêncio, inércia). Esta oposição reaparece em “tumulto solitário”, o verso conclusivo da primeira estrofe.
Neste dia, em que o cinzento predomina sobre o dourado, o eu líri-co se mostra em comunhão com a natureza que chove e que, talvez por isto, tenha afugentado as pessoas do “parque”. No símile dos versos finais, vemos a insinuação de que aquela não é a primeira “tempestade” e certamente não seria a última. Cabe aqui lembrarmos que as tempestades, tanto as físicas quanto as simbólicas, servem também para lavar o corpo e os acontecimentos.
De olhos lavados, podemos ver coisas diferentes e seguir livres da infância, dos parques e também dos anjos.


Marcus Vinicius Quiroga

domingo, 3 de julho de 2011

A LISTA

Oswaldo Montenegro


Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
hoje acreditam que amam você?



Ouvindo um DVD de Oswaldo Montenegro, prestei atenção à letra e ela me lembrou a questão da empatia. Trata-se de uma letra direta, quase que inteiramente denotativa, em que o autor está mais interessado em dizer algo do que na forma poética como diz. Aliás, este é um fato que ocorre com boa parte das letras de nosso cancioneiro.
Com exceção da metáfora “no espelho do agora”, o texto é simples e referencial, mas cumpre o seu objetivo: o de nos fazer pensar sobre o tema da canção, daí a empatia prevalecendo sobre a poesia.
Fazer uma lista pode parecer coisa de livro de autoajuda, mas o fato é que, quando escrevemos algo, é mais difícil mentirmos para nós mesmos, portanto fazer listas é útil e funciona como o espelho, citado posteriormente.
Então, vamos lá: Quem são nossos grandes amigos? Não vale apenas parente, conhecido, colega de trabalho ou ex-colega de escola. Pensemos só em grandes amigos, como confidentes, com os quais temos liberdade para telefonar a qualquer hora e de pedir qualquer coisa sem constrangimento.
Agora vamos à segunda parte: Quantos ainda vemos? Quantos ainda sentam conosco à mesa de um bar? Quantos ainda frequentam a nossa casa? Quantos ainda nos telefonam? Quantos ainda nos escrevem (carta, bilhete, e-mail)?
Não paremos, não. Agora é a vez dos sonhos. Quantos são reescritos nas agendas há décadas? Quantos nos realizamos? Quantos se perderam no caminho? Quantos – cremos- ainda poderão ser alcançados?
E tomemos mais perguntas: Quantos amores, afetos, afeições conseguimos preservar? Quantos amigos jogamos fora? E quantos nos jogaram? Quantos afetos tiveram que desaparecer para que outros surgissem? De quantas vidas desaparecemos para que elas seguissem seus caminhos? Quantos encontros e desencontros nos formaram e nos fragmentaram?
Quantos amores e amigos já morreram lenta ou inesperadamente? Quantos nós já enterramos ou quantos ainda esperam por Antígona? Quantos nos ensinaram a fragilidade do tempo?
E por falar em tempo, que tal pensarmos sobre as coisas que um dia julgávamos importante e que hoje são tão tolas? E também sobre aquelas que permanecem importantes, porque não mudaram, porque não mudamos...
Agradam-me particularmente os versos: “Quantos defeitos sanados com o tempo / Eram o melhor que havia em você?”, porque me irritam, também particularmente, palavras como defeitos e qualidades. São palabras típicas de pessoas inseguras que se dizem “perfeccionistas”, só para insinuar que os outros fazem tudo errado...
Bem, voltemos ao que interessa: “Quantos defeitos sanados com o tempo/ Eram o melhor que havia em você?”. Estes versos nos fazem pensar sobre o que é ou não defeito e que a “correção” de certos “defeitos” por questões sociais, familiares, profissionais, conjugais etc serve apenas para nos afastar de nós mesmos. Lembro aqui de A flor e a náusea, de Drummond: “o menino de 1918 chamavam anarquista./ Porém meu ódio é o melhor de mim. /Com ele me salvo/ e dou a poucos uma esperança mínima”
Embora estejam na terceira estrofe, os versos “Onde você ainda se reconhece?/Na foto passada ou no espelho de agora?/ Hoje é do jeito que achou que seria?” são o clímax da letra, pois amigos, sonhos, amores, mistérios, segredos, tudo faz com que nós nos vejamos e pensemos se é possivel nos reconhecer ou se, mais do que perder amizades, nos perdemos. Não nos reconhecermos no “espelho do agora” é o pior que pode nos acontecer; já na foto passada, certamente não estamos mais, pois o tempo já passou e os acontecimentos ficaram para trás, ainda que eternos (eu prefiro dizer históricos) dentro de nós.
Somos do jeito que achávamos que seríamos? Não? Por que não? O que não fizemos? O que desfizemos? O que escolhemos? O que abandonamos? O que preterimos? O que elegemos?
Na verdade, o grande tema desta canção é o tempo, a passagem do tempo e suas mudanças. Fazer estas listas pessoais também serve para mostrar que tudo muda e não temos que olhar para estas mudanças necessarimente com nostalgia, arrependimento, remorso ou pesar. As coisas mudaram porque quisemos que isto acontecesse. Não somos vítimas do tempo, mas seus agentes.
Guardar álbuns e mais álbuns não nos impede de envelhecermos nem de nos perdermos de nós mesmos. São só imagens. E um porão (ou sótão) cheio de álbuns e poeira talvez nos nos leve de volta a nós mesmos, se for esta a nossa intenção.
Esta letra-balanço sem dúvida insinua que na contabilidade da vida a coluna de perdas foi grande e que nós fomos, é claro, os responsáveis por boa parte delas. Mas seu tom não é de lamúria, mas de reflexão, reflexão que deve conduzir à ação.
Talvez alguns, após ouvi-la, pensem em se reconciliar com antigos amigos; cá eu penso que ela incita a que nos reconciliemos com nós mesmos. Ou seja, que respondamos a tantas perguntas (a estas e a outras tantas) e reflitamos sobre o tempo e o espelho ou, sobre o tempo-espelho. Provavelmente quando abrimos mão de pessoas e de coisas (e até de “sonhos”) o fizemos para não abrirmos mão de nós mesmos. Se muitos de nós se identificam tanto com tais versos é porque a identidade é nossa maior questão.
E que haja sempre uma mínima esperança drummondiana para romper o asfalto, todo tipo de asfalto.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O PROSAICO E O POÉTICO

Cena Familiar

Affonso Romano de Sant'Anna


Densa e doce paz na semiluz da sala.
Na poltrona, enroscada e absorta,
uma filhadesenha patos e flores.
Sobre o couro, no chão,
a outra viaja silenciosanas artimanhas do espião.
Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura
flamenga, desenhando, bordando pontos de paz.
Da mesa as contemplo e anoto a felicidade
que transborda da moldura do poema.
A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos,
relembranças de viagens e a lareira acesa.
Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros,
é uma nave iluminada.
Um oboé de Mozart torna densa a eternidade



Observemos esta cena familiar que, a princípio descritiva,vai, aos poucos, se tornando poética. No verso “ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura”, já temos o verbo iluminar, desfazendo o discurso referencial.
A partir daí, outras imagens vão surgindo: bordar pontos de paz, transbordar da moldura do poema ...
Mas é nos versos finais que o prosaico (a cena familiar que se dá em inúmeras casas) se faz poético, com a metáfora casa: nave iluminada e com a música de Mozart dando àquele momento status de eternidade.


Marcus Vinicius Quiroga

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A LINGUAGEM E SEUS FRACASSOS

ASSIM COMO

Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade, Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada. Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada. Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença. Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

Alberto Caeiro



O poema de Pessoa ilustra a questão do fracasso da linguagem, ou da entropia, quando o pensamento se torna palavra, como se esta nunca atingisse a total identidade com aquele.
Em um poema temos a relação entre pensamento, linguagem e realidade. Logo podemos ter distância entre pensamento e linguagem, e entre linguagem e realidade.
Um poema não é o que poeta quis dizer, mas o que ele disse e como ele disse. Um poema não é uma mensagem emitida verticalmente
O jogo de palavras dos primeiros versos, por exemplo, é um modo de dizer algo, e não apenas este “algo”.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

INTERPRETAÇÕES, SEMPRE NO PLURAL



Tu, Místico

Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;
Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.
Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.

Alberto Caeiro





No dia do aniversário de Fernando Pessoa, nada melhor do que um texto seu para reflexão. Este é de Alberto Caeiro, heterônimo, de extrema coerência e de particular lógica, que trata de um tema de sua predileção: a significação.
As palavras são o que significam ou o que interpretam que elas sejam? Se na política nacional há a famosa história do fato e da versão. na vida também temos versões, e não fatos. E na literatura temos interpretações, sempre no plural. Porque são múltiplas as leituras, as ideologias que se aproximam (e se apropriam) do texto, e as interpretações segundo este ou aquele interesse.
Para Nietzsche, interpretação é sempre uma questão de interesse. Seja lá de que ordem for.
Daí ser susceptível de interpretação é deixar de ser, é ser capturado pela leitura alheia, pela alheia versão, pela alheia parcialidade.
Se lembrarmos que parcialidade vem de parte, toda interpretação é a visão de uma parte, visto que o todo sempre nos escapa.
Párea mestre Caeiro, ser não significa, ser é.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

MATERIAIS POÉTICOS I

Materiais

A utilidade da pedra:
fazer um muro ao redor
do que não dá para amar
nem destruir.
A utilidade do gelo:
apaga tudo que arde
ou pelo menos disfarça.


A utilidade do tempo:
o silêncio.


Paulo Henriques Britto

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O TEMPO E AS QUATRO PAREDES

Le Passe-Muraille
Resumo
Le Passe-Muraille é um romance de Marcel Aymé publicado em 1943. Ele representa um grande homem chamado Dutilleul que tinha o dom singular de passar através das pare-des sem serem incomodados. Ele usava um pince-nez, um negro pequeno cavanhaque, e ele foi contratado pela terceira classe no Departamento de Registro. Tipo da wan rapaz, cinza invisível, o Sr. Dutilleul saberá perfeitamente aventuras repreenden-tes, encontrar um amor e perdendo o dom excepcional para ficar preso na parede. Ele tem o pintor Eugene Paul e sua guitarra para confortar a solidão. A acção tem lugar Norvins rua em Montmartre no 18 º arrondissement, onde viveu Marcel Aymé.

Neste livro de Marcel Aymé o personagem ficava alguns dias dentro das paredes, e outros, fora. Já a poesia não aceita paredes; deseja-se cotiddiana.
Reparem como na sentença anterior, opus tempo a espaço, para chamar atenção para a estreita relação entre os dois. A princípio, poderíamos dizer que a existência se dá no tempo e no espaço. Ou diríamos que o tempo usa o espaço,posto que o tempo passa, e o espaço, não.
Ao fim da existência, não há mais tempo,mas sobra o espaço. Agora vazio. Portanto, ao fim e ao cabo, a existência se dá mesmo no tempo. E o espaço se faz necessário para que o tempo se espalhe.
Em Guardar, o poeta-filósoto Antonio Cícero,de certa maneira,mostra que as coisas não são guardadas nos espaços, como cofre,mas do lado de fora, através do atos de olhar, admirar e iluminar,atos que só existem no tempo e dependem de alguém para fazê-los, ao contrário do cofre. O olhar e o iluminar têm duração, o cofre, não.


Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que de um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cícero


Podemos guardar poemas em gavetas, disquetes, CDs,mas a poesia só é guardada no tempo. Por isto, precisamos cuidar (pensar) do tempo para que haja o voo (duração) do pássaro, e não só o pássaro em seu ninho,digo, em seu espaço. Poemas,como pássaros,foram feitos para o ar livre do tempo.
A poesia não pode ficar presa, dentro das quatro paredes dos hábi-tos e dos relógios de um mundo supostamente familiar.
Podemos guardar poemas em gavetas, disquetes, CDs,mas a poe-sia só é guardada no tempo. Por isto, precisamos cuidar (pensar) do tempo para que haja o voo (duração) do pássaro, e não só o pássaro em seu ninho,digo, em seu espaço. Poemas,como pássaros,foram feitos para o ar livre do tempo.
A poesia não pode ficar presa, dentro das quatro paredes dos hábitos e dos relógios de um mundo supostamente familiar. A poesia exige que saiamos do lugar para guardá-la,fora de lugar. No tempo. Sempre.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

POESIA E ESCOLHA

CONVERGÊNCIA


não é só a folha
que escolhe
o poema

também a pena
escolhe
o tema
as palavras

não é só a folha
que a pena
ara

também a palavra
cava fundo
e esbarra
no sentido

não é só o silêncio
que escolhe
o poeta

também no não dito
ele
se espelha

todo poema olha
o mundo
de um modo

não há texto
que não seja feito de escolha

Bernado Campos


Todo texto é feito de escolhas paradigmáticas e sintag-máticas, como se dizia. Todo texto é um recorte (e poderia ser outro), logo nos faz olhar para uma determinada direção (e não para outras) e pensar em certas coisas (e não em outras).
Cada palavra em si já é uma escolha. E na poesia, mais do que na prosa, ela tem mais razões para estar ali naquele lugar do texto.
Toda palavra é histórica. Toda escolha também.
Para o leitor de formação mais sincrônica, a percepção diacrônica do mundo é mais difícil. Ele só lê o texto no momento, como se as palavras não estivessem ali há muito tempo. Quem não olha para o antes da palavra, não lhe percebe o sentido.
As escolhas não são só sincrônicas, elas têm um pretéri-to, uma raiz. Querer compreender o texto pensando só no momento presente é não querer compreendê-lo.
Leitores sincrônicos normalmente andam em círculos e não se dão conta das razões que os levam a não sair do lu-gar. Associações erradas os conduzem a interpretações erradas.
Todo texto responde por suas escolhas. Do mesmo modo o leitor.
Os acasos diminuem na relação direta do crescimento das escolhas. E se algo se repete com frequência, é sinal de que a repetição não é por acaso.
Não há tanto “destino”, quando há mais escolhas.
Com a sucessão histórica de escolhas o poeta constrói sua casa; outros, o vazio.
Do lado de fora, tudo é espelho.


Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O REGISTRO COLOQUIAL E A IRONIA

Sonetilho de verão


Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.


O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

Neste poema temos o uso de registros diferentes para que que ocorra um choque,um estranhamento. A linguagem coloquial já não é há muito tempo novidade na poesia, mas o convívio de diferentes registros é a causa do novo neste texto. A expressão popular final, típica do linguajar carioca, estabelece um distanciamento irônico em relação ao que foi dito acima. De afirmações graves como "o mundo não tem conserto" ou "meu coração se agonia" o poema chega a um final inesperado com "amanhã deve dar praia". Não é só o discurso coloquial que interrompe questões existenciais sérias, mas a mudança de interesse: a possiblidade de praia,isto é,de prazer imediato, físico, possível no lugar de respostas a questões de ordem metafísica,e talvez inalcançáveis.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O POEMA É POR INTEIRO

O Poema

Ou se vive por inteiro
ou pela metade a gente
escreve a vida
que não viveu.

E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.

O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia.

Moacyr Félix


O poeta político Moacyr Félix aqui funde metalinguagem com política (no seu sentido mais amplo). Para nós, da oficina, chamo a atenção para a linguagem conotativa: símile na segunda estrofe e metáforas na terceira, e as áreas semânticas (prisioneiro, cela, cárcere; poema, folha em branco, escreve).
Se, por um lado, temos imagem mais gasta como “chama que queima”; por outro,temos imagem que permite múltiplas leituras,como os dois últimos versos.
Mas no momento o que queremos mesmo é pensar sobre a primeira estrofe, cujos versos lembram a estrutura de um axioma filosófico, uma afirmação, e isto aparece com certa frequência na obra de muitos poetas.
A opção posta por Moacyr tanto serve para a poesia, quanto para a vida. O aqui e agora, o espaço e tempo estão subentendidos, porque não há como separá-los. Ou estamos inteiro nas coisas mais simples e mais corriqueiras ou estamos em falta, e na falta. Ou, triste e ironicamente, como diz o poeta, pela metade cabe a nós escrever sobre metades.
Estar inteiro não é coisa de celebridade, de holofotes, de glamour, afinal a vida não é invenção da mídia; estar inteiro é coisa do dia a dia e do que (permitam-me o jogo de palavras) não se adia. Vida que se adia, sim, é vida pela metade.
Na vida, como na poesia, não há o que se esperar. E aqui (ou seria agora?) lembramo-nos de Ouro sob água, de Suzana Vargas:

...um homem
me perguntava
sobre a melhor forma
de começar um banho
sem reparar no profundo da questão

- Entro devagar
ou de uma vez por todas? Perguntou

-Por todas, respondi
Não há céu ou inferno
que comece devagar


Pela metade talvez equivalha a devagar e inteiro, a de uma vez por todas. E Suzana agora (ou seria aqui?) nos confunde com a sugestão de que a vida também é uma questão de advérbio de modo.
Hoje são feitas a vida e a arte; para amanhã, só o arrependimento e o remorso, matéria que normalmente dá tema psicanalítico ou religioso, mas não poético. Já este parágrafo insinua que a vida tem muito a ver com advérbios de tempo. Seja o advérbio que for, mas de preferência não seja para escrever a vida que não vivemos.









Marcus Vinicius Quiroga

sexta-feira, 27 de maio de 2011

EXERCÍCIOS DA OFICINA

1 – Leia os dois textos abaixo e faça um poema com temática social,abordando algum problema atual do país.

MULHER PROLETÁRIA

Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.
Jorge de Lima

PRIMEIRO DE MAIO

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é vendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã

Chico Buarque



2 – Depois de ler o poema de Drummond,faça outro,também narrativo, com tema livre.


DESAPARECIMENTO DE LUÍSA PORTO

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
À Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada ha longos anos
erma de seus cuidados.

Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva,
que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.

Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta, meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.

Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
(Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.

Se todavia não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco a cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
É Rita Santana, costureira, moça desimpedida.
a qual não da noticia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.

Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898,ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra a tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem, leu no Diário Mercantil,
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.

Pela ultima vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz intima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho da alma.

Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno
filial e do próximo.

Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei.
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
O olhar desviado e terno, canção.

A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providencias.

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a pagina:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá :
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa ( somos pecadores )
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
— ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a cólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum proverá.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos•
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intacta nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
gravada no centro da estrela invisível
Amor.

Carlos Drummond de Andrade


3 - Todo texto tem uma visão de mundo: uns de forma mais explícita do que outros.No caso de Tarefa,de Geir Campos.percebemos os valores humanistas.Faça, então,um poema
em que valores sejam mais facilmente identificados.


TAREFA

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

Geir Campos


4 – Faça mais uma estrofe para o poema de Cecília, mantendo a coerência das ideias.


A ARTE DE SER FELIZ

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
.........................................................


Cecília Meireles


6 – Leia os poemas que tratam da infância e faça outro sobre o mesmo assunto,em versos livres,como os de Drummond ou metrificados, como os de Secchin.


INFÂNCIA

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Carlos Drummond de Andrade


"DE CHUMBO ERAM SOMENTE DEZ SOLDADOS"

De chumbo eram somente dez soldados,
plantados entre a Pérsia e o sono fundo,
e com certeza o espaço dessa mesa
era maior que o diâmetro do mundo.

Aconchego de montanhas matutinas
com degraus desenhados pelo vento;
mas na lisa planície da alegria
corre o rio feroz do esquecimento.

Meninos e manhãs, densas lembranças
que o tempo contamina até o osso,
fazendo da memória um balde cego

vazando no negrume de um poço.
Pouco a pouco vão sendo derrubados
as manhãs, os meninos e os soldados.


7 – Faça versos para o poema de Astrid Cabral, de forma que a continuação faça sentido.


ENSAIANDO PARTIDAS

...........................................................


Na praça São Sebastião galeras de bronze
destinavam-se a longínquos continentes mas
imóveis não singravam ondas de lusas pedras
deixavam-se estar molhadas tão só de chuvas
proas frustradas de horizontes e azuis.
Que estranha calmaria as conjurara, quilhas
vacinadas contra a vertigem dos ventos?
Ou estariam desde sempre fundeadas nas
invisíveis correntes d’água dos séculos?
Dobravam os sinos abafando os frenéticos
pianos a planger nos salões dos sobrados
mas o que sempre se ouvia, pouco importa
se baixo e rouco, era o gargarejar do rio
a vocação de foz e mar drenando fragmentos
de terra, arrastando de roldão os corações.

Astrid Cabral


8- Faça uma paródia do famoso poema de Bandeira.


PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida ineira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
[pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Bandeira


9 – Serenata sintética,como o título já diz ,é um exemplo de poema curto,como vigorou nos anos 60. Faça um poema em que haja também bastante condensação da linguagem.


SERENATA SINTÉTICA

Rua
torta.

Lua
morta.

Tua
porta.

Cassiano Ricardo


10 – Vejamos outro texto de Cassiano Ricardo. Agora temos um de poema metalinguís-tico.Faça, então,outro em que haja questões de metalinguagem.


POÉTICA


1
Que é a Poesia?

Uma ilha
Cercada
De palavras
Por todos
Os lados.

2
Que é o Poeta?

Um homem
Que trabalha o poema
Com o suor do seu rosto.
Um homem
Que tem fome
Como qualquer outro
Homem.


Cassiano Ricardo

POEMAS E PINTURAS

FAÇA POEMAS, MOTIVADO PELOS QUADROS DE MAGRITTE, GOYA, FRIDA
KAHLO E PORTINARI.






















































quinta-feira, 26 de maio de 2011

A LINGUAGEM REFERENCIAL

Poema Brasileiro

No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade


antes de completar 8 anosde idade




Ferreira Gullar



O texto Poema Brasileiro,de Ferreira Gullar, é feito apenas dos versos “No Piauí de cada 100 crianças que nascem/ 78 morrem antes de completar 8 anos de idade”, que se repetem e sugerem uma repetição ad eternum. Os versos se distribuem de forma diferente,valorizando a utilização do espaço em branco da página, como era típico nos 50/60.
Mas o que nos interessa no momento é chamar a atenção para o fato de que este “pequeno” poema é,na verdade,uma afirmação (ou informação) que poderia estar em um livro didático de Geografia ou em um jornal.E, como sabemos, o discurso literário se diferencia dos discursos didático e jornalístico.
Teríamos então aqui uma contradição?
Sabemos também que literário é o uso que fazemos dos textos.Portanto, esta afirmação,em linguagem denotativa, pretende-se poética, por ocupar o espaço do livro e se relacionar com os demais textos. Sim,trata-se de um poema, à primeira vista, estranho, por ser curto, informativo, didático e referencial. Levando-se, no entanto, a época em que foi feito/publicado (início dos anos 60),o pano de fundo histórico justifica a sua criação e a sua denúncia. Não sabemos hoje quantas crianças morrem no Piauí antes de completar 8 anos de idade, embora saibamos quantas pessoas morrem no Pará, por defenderem causas ambientais. Chico Mendes, no Recreio dos Bandeirantes, é nome de parque, mas no Pará talvez devesse ser nome de cemitério.
É claro que o é dito neste texto prevalece sobre o como é dito, como prova a referencialidade das palavras.


P.S. Como exercício, poderíamos recortar frases dos jornais, semelhantes às escolhidas por Ferreira Gullar. Talvez tenhamos material para um livro inteiro, para espanto e tristeza.








antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade


Ferreira Gullar

segunda-feira, 4 de abril de 2011

POESIA E SOLIDARIEDADE

Tecendo a Manhã

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


João Cabral de Melo Neto