segunda-feira, 22 de abril de 2013

OURO DE TODOS


OURO DE TOLO

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...
Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...
Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado...
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...
Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...
É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...
E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...
Ah!
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...


    O verso inicial anafórico  “Eu devia...” poderia ser usado ad eternum ou ad nauseam neste rap avant la lettre.  Esta canção, entre muitas, faz parte de uma estética do desagradável (Com a boca escancarada/cheia de dentes/ esperando a morte chegar), que, ainda hoje, é mal vista. A colônia prefere a versão holiudiana das perdas e danos , o shopping center das hipocrisias, com a etiqueta fashion das roupas do lado de fora. Os atiradores de plantão miram os raulzitos e oferecem ácido, já que a vida aqui é tão sweet, tão sweet home, honey moon.
    Em 89, Raul deu a mão a Leminski e saltaram da ponte. Qualquer semelhança é mera coincidência.  Na hora h, a turma para e você salta sozinho sem paraquedas. Boa viagem, cowboy fora da lei! Heróis morrem dis-traídos.
    A preferência pelo conteúdo espontâneo talvez seja um pouco adolescente, o que talvez (também) explique o interesse dos adolescentes de décadas diferentes por sua obra. De qualquer forma (sem trocadilho), é um conteúdo necessário, para desafinar o coro dos contentes (?). Sorria, você está na Barra. E como pesa.
     Versos como: “E você ainda acredita/Que é um doutor/Padre ou policial/Que está contribuindo/Com sua parte/Para o nosso belo/Quadro social” fazem o desmascaramento de um sociedade sem alternativa (com trocadilho). A juventude hightech tem mais e mais aparelhos sofisticados para dizer algo, só não tem o que dizer. E por isto tagarelam tanto, para que e silêncio-espelho não reflita o vazio. Ideologia eu quero uma para viver. O fim da história? Deixe de história, o tempo não para.
   A turma do outro bairro, com seus cães amestrados, seu cartões corporativos, seu corporativismo social. Aos demais, a lei. Nada como a velha opinião formada sobre tudo. Câmaras de vigilância e radares espalhados  pelos quatro cantos das salas com porcelanato de primeira.
     Best seller, blockbuster, Buster Keaton, tudo me apavora. Mantenha o escritório clean, o apartamento clean, que o serviço sujo será feito pela firma tercerizada. E os pastores do reino lavam as almas a preços módicos.
    Mas o senhor Seixas não quis ser salvo. O que era realidade? O que era cidade cenográfica da Globo? Ele devia estar contente por ser resgatado pelo Domingão, só que não estava. Eles querem mesmo é cantar iê-iê-iê.
       É proibido alimentar os animais. Se não entendeu, Tente outra vez.



Marcus Vinicius Quiroga 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O VIOLÃO DE LEONARD COHEN







É tarde, Leonard
Todas as notas já se foram. A porta do bar
está baixa, mas ainda
                                 entreaberta
Me ofereço um trago
                               a esta hora
e imagino violinos
                          ao redor
A canção nos escapa entre cordas







Um sax interrompe ontem,
Leonard
Um lance de azar não abolirá
                                             o ocaso
Os dedos exaustos
                executam uma espécie de lamento
No entanto, não há uma gota de sangue
em cada partitura
Já que a ironia desfez
           as pistas, as impressões digitais,
lembranças
                    se dependuram
                                             no ar





Leonard,
como se escreve uma carta
que aparentemente não
       diga nada?
De que sombra surge seu sobretudo
com flocos de neve
                   e versos saindo do bolso?

Mas não vejo o destinatário
                       e o eu do remetente é outro







Não olhe para trás agora
O tempo apagou o rasto,
amarelou as palavras da senha,
rasgou o desenho
                           do mapa
Nesta plataforma vazia
                              em alguma ponto da Europa,
suponha nas mãos só moedas
                              de outra época







Fios se tecem,
repetem antigas tapeçarias,
que não serão postas nas paredes
Os fragmentos
se acumulam nos dias
e nem sempre formam um mosaico legível

Leonard,
o que não se explica no discurso
segue
como se fosse ou não fosse absurdo




Leonard,
talvez não seja sensato,
mas façamos um acordo
(que importa qual de nós já esteja morto?)

O tempo bate a porta
                      e tranca
as entrelinhas em um envelope

Mais um trago,
                      mas que seja o último

A máquina de escrever
o violão
ou o sobretudo
                        às vezes podem ser úteis


          Marcus Vinicius Quiroga



terça-feira, 26 de março de 2013

NESSE ROCK ESTAMOS TODOS JUNTOS



Meu Caro Amigo

(Chico Buarque)

......................................................................................
Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que 
....................................................


A LISTA
(Osvaldo Montenegro)

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
............................................................
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?


Amigo é Para Essas Coisas
(Aldir Blanc)

- Salve!
- Como é que vai?
- Amigo, há quanto tempo!
- Um ano ou mais...
- Posso sentar um pouco?
- Faça o favor
- A vida é um dilema
- Nem sempre vale a pena...
......................................................................
- Adeus
- Toma mais um
- Já amolei bastante
- De jeito algum!
- Muito obrigado, amigo
- Não tem de quê
- Por você ter me ouvido
- Amigo é prá essas coisas
- Tá...
- Tome um cabral
- Sua amizade basta
- Pode faltar
- O apreço não tem preço, eu vivo ao Deus dará



Que Bom Amigo

Que bom, amigo
Poder saber outra vez que estás comigo
Dizer com certeza outra vez a palavra amigo
Se bem que isso nunca deixou de ser
Que bom, amigo
Poder dizer o teu nome a toda hora
A toda gente
Sentir que tu sabes
Que estou pro que der contigo
Se bem que isso nunca deixou de ser
Que bom, amigo
Saber que na minha porta
A qualquer hora
Uma daquelas pessoas que a gente espera
Que chega trazendo a vida
Será você
Sem preocupação

Canção Da América

(Milton Nascimento)


Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam "não"
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Hey Amigo

(O Terço)


Hey amigo, cante a canção comigo!
Hey amigo, cante a canção comigo!
É nada!
É quase!
É tudo!

Hey amigo, cante a canção comigo!
Hey amigo, cante a canção comigo!
Metade é parte de um todo!

Nesse rock estamos todos juntos!
Nesse rock estamos todos juntos!

 Amigos

(O Terço)


Nos cinco dedos de cada mão
Eu contei a minha legião de amigos
Sendo que cada nome que eu lembrei
Me lembrou que há muito tempo
Eu não vejo essa gente.
Mas como eu queria saber...
Eu não sei se é possível reviver amizades,
Não sei se cada amigo que me escuta me entende,
Não sei se ainda temos os mesmos defeitos,
Não sei...
Faz tanto tempo!


Último Desejo

(Noel Rosa)

......................
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim

                     A propósito (ou não)


            Minha avó contava uma história de uma mulher que foi jogar a água suja da bacia (era um tempo em que os homens ainda se banhavam em bacias) fora e jogou junto a criança.  Coisas da minha vó.
            Estas letras se referem ao mesmo tema. Em Caros amigos, a ironia de versos que devem ser lidos tendo os tempos de repressão como pano de fundo. A forma de carta já indicia o exílio, pois era tempo de exílios, dentro e fora do país.
        Em A lista, a letra propõe a autorreflexão, pede que o ouvinte/leitor se olhe no espelho. Mas não vale trapacear.
Nada de maquilagem. Ela fala em “grandes amigos, ou seja, conhecidos, colegas e amigos do facebook não entram na lista
        Depois Aldir, em uma bem bolada letra de bar, faz versos
só com as falas entrecortadas de um diálogo múltiplo. O tom deprê, típico de fim de noite, mostra a filosofia de botequim (“A vida é um dilema/Nem sempre vale a pena”). Por falar em filosofia, a melhor luva de pelica é usada por Noel, neste dístico
irretocável: “Às pessoas que eu detesto/Diga sempre que eu não presto”.
        Já Milton, na esteira amorosa dos anos 70, traz o lugar-comum piegas (“O que importa é ouvir/ a voz que vem do coração”) e a possível e heroica esperança em:” Uma daquelas pessoas que a gente espera/Que chega trazendo a vida/Será você”.
        Por fim, os rapazes do Terço, mais realistas, na simplicidade oral de seus versos, concluem sem expectativa que “já faz tanto tempo”. E é claro que todos sabemos onde o rock errou.
     Minha avó contava uma história de uma mulher que foi jogar a água suja da bacia (era um tempo em que os homens ainda se banhavam em bacias) fora e jogou junto a criança.  Coisas da minha vó.











Marcus Vinicius Quiroga 

domingo, 17 de março de 2013



THE HOLLOW MEN

Não queriam a vida.
Bastava-lhes a imagem.
Alérgicos a horizontes
não chegavam à janela.
Só miravam a paisagem
por entre câmaras e lentes
cumprindo programas
de turísticas viagens.
Nem poentes nem montes
nem sorrisos nem olhares
confiavam à memória.
Queriam fotos nos álbuns
e carrosséis de slides.
À noite, cegos, não viam
o rastro do dia nos rostos
em torno e, lábios de pedra,
não riscavam a faísca
do diálogo nem o fogo
generoso do convívio.
Preferiam o amor da novela.
Dissolvidos em poltronas
em frente à tela acesa
acordados dormiam
despidos de si mesmos.

                                                   Astrid Cabral

                                 Reparemos no vocabulário do poema: imagem, janela, miravam, câmaras, lentes, fotos álbuns, slides,cegos, viam, tela, acesa. Todas as palavras se referem ao olhar. Neste texto, dá-se uma inversão: o olhar que seria o primeiro passo para a compreensão das coisas passa a significar alienação, cujo exemplo máximo  é a novela de televisão.
                                 A imagem se sobrepõe à vida. O registro do momento pela câmara importa mais  do que o registro pelo olhar e pela memória. Mostrar a viagem  feita dá mais prazer do que fazer a viagem.
                                No paradoxo final (acordados dormiam), a contradição de certos homens que se despem de si mesmos, que se esvaziam nas imagens, nas fotos, nas telas e, por isto, não conseguem estabelecer o diálogo com o outro.            


M


quinta-feira, 7 de março de 2013

TINHA UM ROCK (PROGRESSIVO) NO MEIO DO CAMINHO





         Quem aí se lembra de O terço, grupo que teve várias formações, e que marcou uma época?Parece que de vez em quando ainda se encontram. É isto: todos nós de vez em quando também ainda nos encontramos. E a sonoridade das canções deste grupo me traz reencontros, comigo mesmo, por que não?.
      Seus integrantes envelheceram, é óbvio, mas suas canções continuam se identificando com a juventude de qualquer idade. Vejo que há canções que permanecem jovens e outras, que já nascem idosas, independente da idade de seu compositor. O terço terá sempre 20 anos.
       Talvez suas músicas me agradassem mais do que suas letras e compunham o fundo musical de um tempo, ao lado   dos clubes das esquinas.
    Vale mais a pena ouvir as letras cantadas do que lê-las aqui, mas eis duas delas.

Adormeceu

Adormeceu
Antes do fim do dia
Entre a rotina do lugar
Porém a vida ainda se faz
Num fraco suspirar.
Reconheceu
A paz que ainda se esconde
Por trás dos mantos da razão
Adormeceu pra não morrer
Morrendo sem saber.
Hey, hey! Hey, hey!
Amor teus brancos sonhos
Se alguém não tem visão
Te abriga.
Adormeceu
Antes do fim do dia
Entre a rotina do lugar
Porém a vida ainda se faz
Num fraco suspirar.
Reconheceu
A paz que ainda se esconde
Por trás dos mantos da razão
Adormeceu pra não morrer
Morrendo sem saber.
Hey, hey! Hey, hey!
Amor teus brancos sonhos
Se alguém não tem visão
Te abriga.
Adormeceu.

O VISITANTE

Vá, vista o que tem
já vai chegar vindo de lá
vem ter de nós boas ou más
vem para saber quem quer viver
Vá, vista o melhor
se que é ainda tem
guardado em pó
lembrando quem você já foi
e se perdeu, e se acabou
um jogral pra contar nossa dor
ensaiar na estação a  sessão final
Vem, que hoje haverá
banda, canção, festa no ar
Abre o portão
se que é ainda vê
neste viver uma razão

   Lidas as duas letras, percebo que em ambas há a palavra razão, com sentidos diferentes.Qual delas tem razão?
   Pela lei do mercado, diz o chavão que o freguês tem sempre razão. Mentira, o mercado é que tem sempre razão. Mas, na contracorrente, há quem ainda veja neste viver uma razão ou nestas canções uma travessia, para além da rotina da maioria dos lugares.

Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013


Gás neon

Viver essa longa avenida de gás neon
Portas de ouro e prata
Falsos sonhos nessas noites de verão
Faces coloridas, farsas de alegria
Beijo sem sabor
Gestos clandestinos tontos e sedentos de amor
Espinhos, rosas, risos, pranto e tanto desamor
Corte, cicatrizes, gritos engasgados
Lágrimas de dor
Máscaras no rosto, continua a festa
No sorriso o sal
A orquestra geme as dores do palhaço
Triste marginal
Ai de quem mergulhar nesse mar de veneno
Nessa lama enfeitada, nesse sangue das taças
Temendo sofrer
Ai de quem quer negar esse mar de veneno
Mil vezes maldito na inconsciência
Das vidas à margem há de ser

   Após assistir ao filme sobre o Gonzagão, busquei sem êxito a letra de Parada obrigatória pra pensar, que, inexplicavelmente, não aparece na internet. Queria algo do início do Gonzaguinha, da fase que prefiro, pois as letras eram mais elaboradas.Aqui fica Gás neon, apresentada por Maria Betânia no espetáculo Cena Muda, como bom exemplo do uso da enumeração.
    Como curiosidade o contraste de certas melodias, do tom áspero de voz e da postura em cena do compositor com versos de tom hiperbólico (mar de veneno, mil vezes maldito...), que vieram a se tornar marca da segunda fase de Gonzaguinha 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013



Último Desejo

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não


Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim


Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim



   Noel Rosa, chamado na época de o filósofo do samba, mostra na segunda parte que não existe o fato, mas as versões do fato. Com sabedoria irônica separa as pessoas afetivamente e a elas dá a versão que agradar mais. Qual é a verdadeira? A que você escolher.
   Caso você escolha a versão falsa, terá também a consequência falsa do fato, continuamente e para todo o sempre.
   Em breve, frases tiradas de suas letras, compondo um modo de pensar.

sábado, 5 de janeiro de 2013




Los Pueblos Americanos


Mi vida, los pueblos americanos,
mi vida, se sienten acongojados,
Mi vida, porque los gobernadores,
mi vida, los tienen tan separados.

Cuándo será ese cuando,
señor fiscal,
que la América sea
sólo un pilar.

Cuándo será ese cuando,
señor fiscal.
Sólo un pilar, ay sí,
y una bandera,
que terminen los líos
en las fronteras.

Por un puñao de tierra
no quiero guerra.

 

 

 

Imagine


John Lennon

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say,
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will live as one


   Após assistir ao filme Violeta foi para o céu, lembrei-me das músicas de Violeta Parra. Aqui vai uma canção cujos versos me levaram a Imagine. Lennon e Violeta, artistas tão distintos, mas hermanados nos sonhos. Como diria nosso Drummond, houve um tempo em que havia jardins, isto é, ainda era possível sonhar.  
   As letras de Violeta eram simples, matéria bruta, mas plenas de paixão. Serviam a uma causa, a um mundo sem fronteiras. Mas isto virou slogan de telefônica em uma época de tagarelas e surdos. Violeta e Lennon emigraram e deixaram um rasto. Gracias.

Marcus Vinicius Quiroga 





domingo, 23 de dezembro de 2012




Catar feijão

João Cabral

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 



Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.



Caçar em vão

Armando Freitas Filho



Às vezes escreve-se a cavalo.
Arremetendo, com toda a carga.
Saltando obstáculos ou não.
Atropelando tudo, passando
por cima sem puxar o freio —
a galope — no susto, disparado
sobre as pedras, fora da margem
feito só de patas, sem cabeça
nem tempo de ler no pensamento
o que corre ou o que empaca:
sem ter a calma e o cálculo
de quem colhe e cata feijão.


Armando respondeu a João e explicitou no último verso a sua proposta.
Agora faça você um poema em que haja outra analogia com o ato de criar, respondendo ou não a Cabral e a Freitas Filho (catar feijão e ir a cavalo).

sexta-feira, 30 de novembro de 2012




  


     Sempre digo que normalmente o leitor (e, portanto, o escritor) não pensa muito na estrutura sintática da obra. E reconheço que é difícil ser inovador sintaticamente, a ponto de criar marcas estilísticas. Basta fazer a pergunta: Quantos poetas você reconhece pela sintaxe?
    Ouvindo duas canções com Renato Teixeira, prestei atenção a versos que trazem a ideia de causa. Em Romaria, de sua autoria, diz Como eu não sei rezar / Só queria mostrar/Meu olhar, meu olhar/ Meu olhar”. E em Tocando em frente, em parceria com Almir Sater, temos “Ando devagar/porque já tive pressa”.
    Na primeira, os versos são o desfecho da letra e a oração causal inicia o período, tendo, pois, papel de destaque: o fato de não saber rezar se sobrepõe ao de olhar. Já na segunda, os versos iniciam a canção e a oração causal vem depois da principal. Então o fato de andar devagar merece mais nossa atenção do que a causa de já ter tido pressa. Lembremo-nos de que sintaxe diz respeito à ordem. Se naquela a sua luz evidencia a ausência da reza, nesta, o modo vagaroso de “andar”.
    Como sabemos, toda ideia de causa traz implícita a de consequência e vice-versa, o que explica a troca costumeira em salas de aula das duas ideias. Já, fora das salas, o que mais vemos é a dificuldade de reconhecimento da causa, como se os fatos das orações principais ocorressem soltos no ar.  
    Em Tocando em frente, a antítese devagar-pressa explica a relação de causalidade de forma curiosa: a causa de alguma coisa é o seu oposto. Diria ainda que vale a pena pensar sobre a causa, seja no início ou no final do período, pois, sem ela, paramos no reconhecimento dos fatos, mas não fazemos o seu entendimento.


Marcus Vinicius Quiroga

terça-feira, 27 de novembro de 2012



AQUARELA
(Vinícius de Mores e Toquinho)

Numa folha qualquer 
Eu desenho um sol amarelo
 
E com cinco ou seis retas
 
É fácil fazer um castelo
 

Com o lápis em torno da mão 
E me dou uma luva
 
E se faço chover
 
Com dois riscos tenho um guarda chuva
 

Se um pinguinho de tinta 
Cai num pedacinho azul do papel
 
Num instante imagino
 
Uma linda gaivota a voar no céu
 

Vai voando, 
Contornando a imensa curva norte sul
 
Vou com ela viajando
 
Havaí, Pequim ou Istambul
 

Pinto um barco a vela, 
Branco, navegando,
 
É tanto céu e mar num beijo azul
 

Entre as nuvens vem surgindo 
Um lindo avião rosa e grená
 
Tudo em volta colorindo
 
Com suas luzes a piscar
 

Basta imaginar e ele está partindo, 
Sereno, lindo,
 
E, se a gente quiser,
 
Ele vai pousar
 

Numa folha qualquer 
Eu desenho um navio de partida
 
Com alguns bons amigos
 
Bebendo de bem com a vida
 

De uma América a outra 
Consigo passar num segundo
 
Giro um simples compasso
 
E num círculo eu faço o mundo
 

Um menino caminha 
E caminhando chega num muro
 
E ali logo em frente
 
A esperar pela gente o futuro está
 

E o futuro é uma astronave 
Que tentamos pilotar
 
Não tem tempo nem piedade
 
Nem tem hora de chegar
 

Sem pedir licença 
Muda nossa vida
 
E depois convida
 
A rir ou chorar
 

Nessa estrada não nos cabe 
Conhecer ou ver o que virá
 
O fim dela ninguém sabe
 
Bem ao certo onde vai dar
 

Vamos todos numa linda passarela 
De uma aquarela
 
Que um dia enfim
 
Descolorirá
 

Numa folha qualquer 
Eu desenho um sol amarelo
 
(que descolorirá)
 
E com cinco ou seis retas
 
É fácil fazer um castelo
 
(que descolorirá)
 

Giro um simples compasso 
E num círculo eu faço o mundo
 
(que descolorirá)
 


     Sem dúvida, Toquinho e Vinícius de Moraes  tiveram um dos “casamentos” mais felizes da MPB   E o segundo tratava de fato suas parcerias como casamentos. Mas reparemos como se dá o casamento entre letra e música em Aquarela.
      Esta canção fez muito sucesso e se tornou um hit da dupla, agradando ao público dos 8 ao 80. A área semântica infantil nos faz pensar em uma canção para crianças. Subitamente os versos “ E o futuro é uma astronave/Que tentamos pilotar” mudam tudo, pois tentamos pilotar”, já não temos a certeza e o controle.
      Distraídos, talvez cantemos alegres a canção sem prestar atenção na armadilha dos versos finais. O refrão “que descolorirá” se intromete, sugerindo o desfecho adverso, ou seja, tudo será desfeito: o sol amarelo, o castelo e o mundo. Lembra-nos o caso de A Banda, de Chico Buarque, cantada normalmente com entusiasmo, embora terminasse de modo desiludo:”Mas para meu desencanto/O que era doce acabou/Tudo tomou seu lugar/Depois que a banda passou/E cada qual no seu canto/Em cada canto uma dor/Depois da banda passar/Cantando coisas de amor/Depois da banda passar/Cantando coisas de amor”.
    Leitores dos existencialistas, diríamos que o futuro é o próprio homem e somente por ele é feito, portanto, não teríamos desculpas para explicar ou ler os acontecimentos. E pensamos de forma contrária aos versos “Nessa estrada não nos cabe/ Conhecer ou ver o que virá”. Se o lápis se encontra em nossas mãos, como podemos nos surpreender com o desenho?  


Marcus Vinicius Quiroga