quinta-feira, 20 de junho de 2013

LIÇÃO SOBRE DENOTAÇÃO E CONOTAÇÃO


Lição sobre a água

Antonio Gedeão



Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com exceções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.



Com base neste texto, faça outro (poesia ou prosa) em que haja a definição de um objeto  e depois a utilização deste objeto com outra finalidade. Aqui a definição da água como se fosse um verbete  foi feita para falar da morte de Ofélia por afogamento. Ou seja, o literário é o dizer indireto, deslocado, de forma que surpreenda o leitor.




Marcus Vinicius Quiroga

domingo, 16 de junho de 2013

A IDENTIFICAÇÃO COM O TEXTO



                                                        GUILHERME ARANTES


OLHAR ESTRANGEIRO

Vejo as pessoas com o olhar mais estrangeiro 
O olhar do estranhamento que não tem nada a perder
 
Vou sentar no meio-fio da rua, contramão da multidão
 
No frenesi dos carros sem sentido pra seguir
 
Não sou daqui
 
Que não tem pra onde fugir, oh yeah, baby!
 
Sem esconderijo pra sumir
 

Relógios galopando um tempo inútil que acelera
 
Quanto mais nos desespera está mais longe de acertar
 
A engrenagem não encaixa, e a cidade é uma cilada
 
Tem de tudo e não tem nada em que eu pudesse me achar
 
Não sou daqui
 
Que não tem pra onde fugir, oh yeah, baby!
 
Sem esconderijo pra sumir
 

Eu vejo um menino
 
Sujo na esquina
 
Ele podia ser meu filho
 
Com seu olhar perdido
 
O mesmo que eu tinha
 
E a poluição me faz chorar

ONDE ESTAVA VOCÊ

Só o tempo em nós respondeu 
Em que se transformou 
A amizade que uma vez existiu 
Quem foi leal, quem ficou e o que se abandonou 

Onde estava você 
Quando mais eu precisei 
Do amigo pra lutar 
Em tempos de guerra e paz 

Onde andava você 
Quando o mundo me esqueceu 
Na areia do deserto e não te achei jamais 

Tanto trabalho que deu 
Reconstruir o chão 
O universo desabou, um furacão 
Pedra por pedra, valeu 
O aprendizado é assim 

Onde estava você 
Quando mais eu precisei 
Do amigo pra lutar 
Em tempos de guerra e paz 

Onde andava você 
Quando o mundo me esqueceu 
Na areia do deserto e não te achei jamais 

Quando somos jovens 
Tantos sonhos são pra durar 
Muitos são os álbuns 
De memórias pra guardar 

Só o tempo em nós respondeu 
Em que se transformou 
A amizade que uma vez existiu 
Quem foi leal, quem ficou 
E o que se abandonou 

Onde estava você 
Quando mais eu precisei 
Do amigo pra lutar 
Em tempos de guerra e paz 

Onde andava você 
Quando o mundo me esqueceu 
Na areia do deserto e não te achei jamais 

Quando somos jovens 
Tantos sonhos são pra durar 
Muitos são os álbuns 
De memórias pra guardar 

       
            Em homenagem à família Dinaldo Medeiros, vejamos estas duas letras do último Cd de Guilherme Arantes para tratarmos da empatia. A primeira retrata uma situação frequente em cidades grandes: o sentimento de estrangeiro do homem, quando olha para tudo ao redor. No caso, a ideia da letra surgiu em São Paulo, que é de fato uma metrópole com miséria e poluição.
        A ambientação da rua já é revelada pelos versos iniciais (“Vou sentar no meio-fio da rua, contramão da multidão/ No frenesi dos carros sem sentido pra seguir “, mas é na última estrofe que surge a cena que nos interessa. Aqui encontramos o menino sujo na esquina com olhar perdido, como milhares de menores abandonados nas grandes capitais do mundo. Só que este é diferente, pois “ele podia ser meu filho”.  Agora, sim, se dá a empatia. Como se a câmara do olhar trouxesse a visão da lente panorâmica para o close. Ou seja, o menino de rua anônimo e distante, ao lado de tantos outros, individualiza-se a ponto de ser visto como o filho de quem o vê.
        Ora, neste momento, se você (leitor/ouvinte) é pai (ou tem o sentimento paternal) passa a pensar também nos meninos de rua como seus possíveis filhos. A identificação se dá com o “eu” poético: ele é pai e, nesta cena, olha para o mundo como pai. E o receptor que é pai provavelmente vai sentir melhor o verso e gostar mais da canção.  Eis, portanto,  o verso-chave da letra: “Ele podia ser meu filho”. E a reação emotiva, diante da infância pobre e abandonada, é o choro, que, na megalópole, poderia ter como causa a poluição.
         No verso final, dá-se a superposição do problema ambiental e socioeconômico (a poluição) com o sentimento particular de um homem em face de outro problema também socioeconômico, agora igualmente particularizado (meu filho). Como se a poluição fosse um frágil disfarce para a verdadeira causa do choro.        

         Já na segunda letra, a identificação ocorre com ouvintes já maduros, pois os versos lamentam as amizades que se perderam no tempo. Ao dizer “Quando somos jovens/tantos sonhos são para durar/Muitos só nos álbuns/de memórias pra guardar...”,  o eu poético assume a distância em relação a sua juventude, que agora existe em álbuns e na memória.
         Os temas da passagem do tempo e das relações afetivas dizem mais respeito a quem tem mais idade e, portanto, já viveu o desfazer destas relações e refletiu sobre os efeitos das mudanças que acontecem na vida.
           A inevitável empatia se dá, pois aqueles que já não são jovens vão se lembrar dos amigos que ficaram para trás, dos que desertaram dos sonhos da juventude, dos que abriram mão da lealdade e dos que se transformaram em pessoas muito diferentes. No refrão “Onde estava/andava você?” se encontra a síntese do sentimento nostálgico que perpassa toda a canção.
      Como exercício, que tal fazermos textos em que haja algum tipo de empatia, como nos exemplos acima?



                    Marcus Vinicius Quiroga            

quinta-feira, 13 de junho de 2013

LITERATURA E REALIDADE





Uma das maneiras de fazer o leitor participar da obra é dizer que algo aconteceu e suscitar dúvida sobre se realmente ocorreu ou não. Ao forjar dados, o ficcionista mostra que a realidade também é uma criação. De fato, nem mesmo o historiador é objetivo, sempre cultiva algum grau de subjetividade. Com o advento de novas tecnologias para registrar a realidade, como a máquina fotográfica, o narrador ficcional se obrigou a ser mais detalhista e, assim, passar mais a sensação do real. Ora, sabemos que tampouco a fotografia corresponde à verdade, pois também é arte, vista do jeito que se quer, sem falar que, no fundo, o narrador jamais será verdadeiro.


Godofredo de Oliveira Neto

domingo, 9 de junho de 2013

UM POUCO MAIS DE DRUMMOND


Sentimento do mundo
Carlos Drummond de Andrade

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.



    A adversidade tão frequente em Drummond se apresenta na última estrofe em uma reunião de contrários, que seria semanticamente um paradoxo. Só que no caso este “paradoxo” não cria um choque, pois o leitor entende de imediato que o amanhecer na guerra não traz o sentido de esperança normalmente associado a esta palavra.

    As imagens de manhã e noite são corriqueiras na literatura, no entanto o desfecho do poema causa efeito pela identificação de manhã com noite, graças ao significado negativo de noite e formalmente pela ausência do verbo e pelo uso enfático da palavra (mais noite que a noite), como se a primeira noite fosse um adjetivo que qualificasse a segunda noite, que é substantivo.   





Marcus Vinicius Quiroga

sábado, 1 de junho de 2013





POEMA DO JORNAL

O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensanguentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A pena escreve.
A polícia dissolve o meeting.


Vem da sala de linotipos a doce música mecânica





    Eis um bom exemplo para nos lembrarmos das linguagens conotativa e denotativa, dizendo que, a princípio, a primeira se identifica com a linguagem poética. O título nos remete para o jornal e seu discurso objetivo, voltado para a informação, portanto, trata-se de um texto que se deseja compreensível e, de preferência, da mesma forma por todos. Já a poesia nem sempre se quer compreendida e,se o for, não o será de formas diferentes por diferentes leitores.

     Na primeira estrofe, há quatro versos que correspondem a manchetes de primeira página. Com exceção da conjunção “e”, não há conetivos. Os versos se sucedem curtos e informativos. Só no último verso aparece a metáfora “a doce música mecânica”, com sutil oposição entre doce e mecânica.Aqui temos a “intervenção poética” do autor em um texto basicamente denotativo.

    Queremos mostrar com isto que às vezes basta uma metáfora (mudança de sentido, pois linotipos não produzem música) para criarmos um poema.     


                    Marcus Vinicius Quiroga

quinta-feira, 30 de maio de 2013

DICIONÁRIO POÉTICO





GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
 
Em cofre não se guarda coisa alguma.
 
Em cofre perde-se a coisa à vista.
 
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
 
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
 
Por isso, melhor se guarda o voo de um pássaro
 
Do que de um pássaro sem voos.
 
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:
 
Para guardá-lo:
 
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
 
Guarde o que quer que guarda um poema:
 
Por isso o lance do poema:
 
Por guardar-se o que se quer guardar.

                                                                        Antonio Cícero

     O poema parte de uma ideia de definição, que se inicia por uma negativa para depois afirmar e desdobrar esta definição. Aqui temos a diferença entre o uso da palavra em estado de dicionário e o uso poético, ou entre objetividade e subjetividade. A definição propõe a inversão: guardar não é esconder, mas publicar, declarar, declamar...
     Na imagem-exemplo, temos “Por isso, melhor se guarda o voo de um pássaro Do que de um pássaro sem voos”. Ou seja, guarda-se, ao contrário do esperado, o que nos foge como um voo, o que é passageiro como o voo, e não o pássaro que se pode pôr em uma gaiola. O guardar-se aqui se dá na memória, na afetividade, não em cofres ou prisões 


                                                        Marcus Vinicius Quiroga

terça-feira, 28 de maio de 2013

MONTAGEM POÉTICA

                       Vocação

O menino pegou uma mudinha de planta
no quintal da casa da avó.
Aprendeu na escola
que as árvores estão acabando
nas florestas.

Tomou uma decisão:
-Vou plantar árvores!
Vou ajudar as florestas!

A primeira foi uma mudinha
da casa da avó.
Num vaso de plástico,
cuidou da plantinha.

Por um bom tempo,
não faltou água,
sol e ventinho
de apartamento.

Um dia, a plantinha morreu,
seca, sem água.

O menino tinha crescido,
estava ocupado
com o vestibular,
seria futuro engenheiro florestal.

                                                                  Angela Jucá

           
 O poema é um exemplo do uso da linguagem denotativa  na literatura. Ou seja, todas as palavras mantêm o seu sentido primeiro, não havendo uma metáfora sequer.
 Narrativo, ele estabelece marcações nítidas de espaço (na casa da avó, na escola, nas florestas) e de tempo (menino e crescido) e, como os textos curtos em prosa, apresenta uma surpresa, um final irônico.
     Esta ironia é o fundamento do poema, pois a plantinha morre por falta de cuidado da parte de um futuro engenheiro florestal. Do ponto de vista linguístico, a ausência de conectivos entre as quinta e sexta estrofes reforça o efeito da ironia.
         A poeta Angela Jucá optou por mostrar quadros, como em uma montagem cinematográfica, sem estabelecer nexos causais sintáticos, deixando que o leitor fizesse as correlações. Desta forma, o sentido não cabe em versos isolados, mas nasce das relações entre eles. Só a revelação final de que o vestibular é para engenharia florestal (justificando o título) é que esclarece a sua intenção crítica.


                                         Marcus Vinicius Quiroga   

domingo, 26 de maio de 2013

POEMA DE CABEÇA ERGUIDA








ERGUER A CABEÇA ACIMA DO REBANHO

Erguer a cabeça acima do rebanho
é um risco
que alguns insolentes correm.

Mais fácil e costumeiro
seria olhar para as gramíneas
como a habitudinária manada.

Mas alguns erguem a cabeça
olham em torno
e percebem de onde vem o lobo.

O rebanho depende de um olhar.


            Affonso Romano de Sant’Anna, leitor de Nietsche,  é poeta que não tem o instinto de rebanho e ,talvez por isto, foi capaz de nos oferecer este poema  que, didaticamente, deveria ser lido em salas de aula, reuniões de empresas, assembleias de toda sorte, câmaras e senados.  Ou seja, é um texto recomendável para todos os rebanhos, pois uma parada para reflexão de vez em quando não faz mal.
            As duas primeiras estrofes mantêm uma relação antitética: “erguer a cabeça” x “olhar para as gramíneas”. Estas são as duas opções de conduta, sendo mai frequente a que se caracteriza pela acomodação, como vemos nos adjetivos costumeiro e habitudinária.  Antitético também é o significado entre rebanho e lobo. Neste (e na sua procedência) a ameaça, talvez fatal.      
            O poema de Affonso não é sobre rebanho e lobos, mas sobre homens. Daí a atenção que devemos prestar a linguagem, que, simbólica, merece uma leitura não literal. Talvez como a de uma parábola.
            Do olhar do leitor também depende o texto, ainda que ele, mesmo enigmático, não tenha a intenção de devorá-lo.  



              Marcus Vinicius Quiroga  

segunda-feira, 22 de abril de 2013

OURO DE TODOS


OURO DE TOLO

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...
Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...
Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado...
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...
Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...
É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...
E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...
Ah!
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...


    O verso inicial anafórico  “Eu devia...” poderia ser usado ad eternum ou ad nauseam neste rap avant la lettre.  Esta canção, entre muitas, faz parte de uma estética do desagradável (Com a boca escancarada/cheia de dentes/ esperando a morte chegar), que, ainda hoje, é mal vista. A colônia prefere a versão holiudiana das perdas e danos , o shopping center das hipocrisias, com a etiqueta fashion das roupas do lado de fora. Os atiradores de plantão miram os raulzitos e oferecem ácido, já que a vida aqui é tão sweet, tão sweet home, honey moon.
    Em 89, Raul deu a mão a Leminski e saltaram da ponte. Qualquer semelhança é mera coincidência.  Na hora h, a turma para e você salta sozinho sem paraquedas. Boa viagem, cowboy fora da lei! Heróis morrem dis-traídos.
    A preferência pelo conteúdo espontâneo talvez seja um pouco adolescente, o que talvez (também) explique o interesse dos adolescentes de décadas diferentes por sua obra. De qualquer forma (sem trocadilho), é um conteúdo necessário, para desafinar o coro dos contentes (?). Sorria, você está na Barra. E como pesa.
     Versos como: “E você ainda acredita/Que é um doutor/Padre ou policial/Que está contribuindo/Com sua parte/Para o nosso belo/Quadro social” fazem o desmascaramento de um sociedade sem alternativa (com trocadilho). A juventude hightech tem mais e mais aparelhos sofisticados para dizer algo, só não tem o que dizer. E por isto tagarelam tanto, para que e silêncio-espelho não reflita o vazio. Ideologia eu quero uma para viver. O fim da história? Deixe de história, o tempo não para.
   A turma do outro bairro, com seus cães amestrados, seu cartões corporativos, seu corporativismo social. Aos demais, a lei. Nada como a velha opinião formada sobre tudo. Câmaras de vigilância e radares espalhados  pelos quatro cantos das salas com porcelanato de primeira.
     Best seller, blockbuster, Buster Keaton, tudo me apavora. Mantenha o escritório clean, o apartamento clean, que o serviço sujo será feito pela firma tercerizada. E os pastores do reino lavam as almas a preços módicos.
    Mas o senhor Seixas não quis ser salvo. O que era realidade? O que era cidade cenográfica da Globo? Ele devia estar contente por ser resgatado pelo Domingão, só que não estava. Eles querem mesmo é cantar iê-iê-iê.
       É proibido alimentar os animais. Se não entendeu, Tente outra vez.



Marcus Vinicius Quiroga 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O VIOLÃO DE LEONARD COHEN







É tarde, Leonard
Todas as notas já se foram. A porta do bar
está baixa, mas ainda
                                 entreaberta
Me ofereço um trago
                               a esta hora
e imagino violinos
                          ao redor
A canção nos escapa entre cordas







Um sax interrompe ontem,
Leonard
Um lance de azar não abolirá
                                             o ocaso
Os dedos exaustos
                executam uma espécie de lamento
No entanto, não há uma gota de sangue
em cada partitura
Já que a ironia desfez
           as pistas, as impressões digitais,
lembranças
                    se dependuram
                                             no ar





Leonard,
como se escreve uma carta
que aparentemente não
       diga nada?
De que sombra surge seu sobretudo
com flocos de neve
                   e versos saindo do bolso?

Mas não vejo o destinatário
                       e o eu do remetente é outro







Não olhe para trás agora
O tempo apagou o rasto,
amarelou as palavras da senha,
rasgou o desenho
                           do mapa
Nesta plataforma vazia
                              em alguma ponto da Europa,
suponha nas mãos só moedas
                              de outra época







Fios se tecem,
repetem antigas tapeçarias,
que não serão postas nas paredes
Os fragmentos
se acumulam nos dias
e nem sempre formam um mosaico legível

Leonard,
o que não se explica no discurso
segue
como se fosse ou não fosse absurdo




Leonard,
talvez não seja sensato,
mas façamos um acordo
(que importa qual de nós já esteja morto?)

O tempo bate a porta
                      e tranca
as entrelinhas em um envelope

Mais um trago,
                      mas que seja o último

A máquina de escrever
o violão
ou o sobretudo
                        às vezes podem ser úteis


          Marcus Vinicius Quiroga



terça-feira, 26 de março de 2013

NESSE ROCK ESTAMOS TODOS JUNTOS



Meu Caro Amigo

(Chico Buarque)

......................................................................................
Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que 
....................................................


A LISTA
(Osvaldo Montenegro)

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
............................................................
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?


Amigo é Para Essas Coisas
(Aldir Blanc)

- Salve!
- Como é que vai?
- Amigo, há quanto tempo!
- Um ano ou mais...
- Posso sentar um pouco?
- Faça o favor
- A vida é um dilema
- Nem sempre vale a pena...
......................................................................
- Adeus
- Toma mais um
- Já amolei bastante
- De jeito algum!
- Muito obrigado, amigo
- Não tem de quê
- Por você ter me ouvido
- Amigo é prá essas coisas
- Tá...
- Tome um cabral
- Sua amizade basta
- Pode faltar
- O apreço não tem preço, eu vivo ao Deus dará



Que Bom Amigo

Que bom, amigo
Poder saber outra vez que estás comigo
Dizer com certeza outra vez a palavra amigo
Se bem que isso nunca deixou de ser
Que bom, amigo
Poder dizer o teu nome a toda hora
A toda gente
Sentir que tu sabes
Que estou pro que der contigo
Se bem que isso nunca deixou de ser
Que bom, amigo
Saber que na minha porta
A qualquer hora
Uma daquelas pessoas que a gente espera
Que chega trazendo a vida
Será você
Sem preocupação

Canção Da América

(Milton Nascimento)


Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam "não"
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Hey Amigo

(O Terço)


Hey amigo, cante a canção comigo!
Hey amigo, cante a canção comigo!
É nada!
É quase!
É tudo!

Hey amigo, cante a canção comigo!
Hey amigo, cante a canção comigo!
Metade é parte de um todo!

Nesse rock estamos todos juntos!
Nesse rock estamos todos juntos!

 Amigos

(O Terço)


Nos cinco dedos de cada mão
Eu contei a minha legião de amigos
Sendo que cada nome que eu lembrei
Me lembrou que há muito tempo
Eu não vejo essa gente.
Mas como eu queria saber...
Eu não sei se é possível reviver amizades,
Não sei se cada amigo que me escuta me entende,
Não sei se ainda temos os mesmos defeitos,
Não sei...
Faz tanto tempo!


Último Desejo

(Noel Rosa)

......................
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim

                     A propósito (ou não)


            Minha avó contava uma história de uma mulher que foi jogar a água suja da bacia (era um tempo em que os homens ainda se banhavam em bacias) fora e jogou junto a criança.  Coisas da minha vó.
            Estas letras se referem ao mesmo tema. Em Caros amigos, a ironia de versos que devem ser lidos tendo os tempos de repressão como pano de fundo. A forma de carta já indicia o exílio, pois era tempo de exílios, dentro e fora do país.
        Em A lista, a letra propõe a autorreflexão, pede que o ouvinte/leitor se olhe no espelho. Mas não vale trapacear.
Nada de maquilagem. Ela fala em “grandes amigos, ou seja, conhecidos, colegas e amigos do facebook não entram na lista
        Depois Aldir, em uma bem bolada letra de bar, faz versos
só com as falas entrecortadas de um diálogo múltiplo. O tom deprê, típico de fim de noite, mostra a filosofia de botequim (“A vida é um dilema/Nem sempre vale a pena”). Por falar em filosofia, a melhor luva de pelica é usada por Noel, neste dístico
irretocável: “Às pessoas que eu detesto/Diga sempre que eu não presto”.
        Já Milton, na esteira amorosa dos anos 70, traz o lugar-comum piegas (“O que importa é ouvir/ a voz que vem do coração”) e a possível e heroica esperança em:” Uma daquelas pessoas que a gente espera/Que chega trazendo a vida/Será você”.
        Por fim, os rapazes do Terço, mais realistas, na simplicidade oral de seus versos, concluem sem expectativa que “já faz tanto tempo”. E é claro que todos sabemos onde o rock errou.
     Minha avó contava uma história de uma mulher que foi jogar a água suja da bacia (era um tempo em que os homens ainda se banhavam em bacias) fora e jogou junto a criança.  Coisas da minha vó.











Marcus Vinicius Quiroga