Marcus Vinicius Quiroga
domingo, 6 de maio de 2012
Marcus Vinicius Quiroga
quarta-feira, 2 de maio de 2012
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sábado, 28 de abril de 2012
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
sábado, 21 de abril de 2012

as mãos que escrevem isto
um dia iam ser de sacerdote
transformando o pão e o vinho forte
na carne e sangue de cristo
hoje transformam palavras
num misto entre o óbvio e o nunca visto
segunda-feira, 16 de abril de 2012
VIVER, VERBO INTRANSITIVO
Exercício
Corrija a postura.
Dose a carga.
Varie os movimentos.
Concentre-se na execução.
Mantenha o ritmo. (Se preferir, acelere.)
Alongue a curiosidade.
Flexione as demandas.
Evite as certezas.
Cuide das lesões.
Aumente a resistência.
Contraia o pranto.
Repita o riso.
Fortaleça o espírito.
Supere a dor.
Melhore o desempenho.
Insista. Persista. Não desista.
Respire sonhos, desejos, fantasias.
Relaxe, descanse e comece tudo de novo.
A vida é uma grande academia. Viver, o inevitável exercício.
Estela Menezes
Um texto alegórico usa várias palavras da mesma área semântica metaforicamente. E difere da utilização de palavras que tenham relação de significado, sem, no entanto, terem sentido conotativo. No segundo caso, teríamos apenas a intensificação de uma área de significação.
No poema de Estela Menezes a palavra “academia” no último verso esclarece a alegoria realizada, lembrando que no texto alegórico vemos sempre inúmeras analogias. Ou seja, a poeta compara os exercícios da vida aos da academia: físicos de um lado; e não físicos (para ainda não dizermos metafísicos), de outro.
Pouco a pouco o vocabulário típico de uma aula de ginástica (postura, carga, movimentos, execução, ritmo..) é contaminado por palavras de outra área como curiosidade ou certezas. E adquirem ambiguidade em versos como “cuide das lesões” ou “aumente a resistência”, pois tanto podemos entender que se referem aos cuidados com o corpo ou com a mente. Isto sem mencionarmos a feliz fusão de “flexione as demandas”, quando as duas áreas se reúnem: a flexão externa e a demanda interna.
Do ponto de vista linguistíco, reparemos o uso reiterativo do modo imperativo, como se fosse a voz de comando de um professor de ginástica, cujo ponto máximo é o verso que desmascara as intenções do texto: “Respire sonhos, desejos, fantasias.”. Trata-se, portanto, de uma aula existencial, e não corporal.
Vejamos ainda como a autora diversifica o uso de vida e viver, de sentidos tão próximos. Se vida é a academia, o espaço para o exercício, viver – verbo de ação e intransitivo – é o próprio exercício, simples como flexões diárias, e denso, como os desejos e as fantasias mais profundas.
Este poema é um exemplo da interferência do poético (“exercícios” existenciais) no prosaico (academia de ginástica) e do deslocamento de sentidos, pois uma área de significados se apropria de outra. Diríamos até que a ideia do texto que antecede a sua realização é que já determinou o efeito poético.
A forma (alegórica e precisa) é que faz com que o leitor se sensibilize e pense sobre o que foi dito. Com permissão da poeta, propomos que escrever poesia também pode ser um inevitável (e agradável, por que não?) exercício.
Marcus Vinicius Quiroga
