Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
Carlos Drummond de AndradeO céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
Neste poema, Drummond usa a
técnica da oposição. Todos os fatos
expostos têm a finalidade de levar o leitor ao último verso. E, ao dizer, que
havia jardins e manhãs naquele tempo, na verdade, ele quer dizer que não há mais
jardins e manhãs nos dias de hoje, De uma caso particular, Clara, o poema vai ao
universal (o mundo inteiro, A Alemanha,
a China, tudo era tranquilo em redor de Clara.) e os fatos simples como ter medo de gripe, calor e insetos podem
ser lidos como medo de perigos maiores, coletivos, e não só individuais.
Prestemos atenção de que é não
sobre Clara que o poema fala, mas de um mundo em que acontecimentos pequenos e
cotidianos, idealizados pelas cores (verde, dourado, azul, róseo, alaranjado),
dão lugar a um mundo do qual o leitor não sabe nada, senão que “jardins’ e “manhãs”
desapareceram. Podemos interpretar estas duas palavras de várias maneiras, uma
vez que estão impregnadas pelo simbólico.
De qualquer forma, o texto
fala de ausências e faltas, sejam elas quais forem. Trata-se de uma crítica ao
momento (em que foi escrito e/ou publicado), em que – repetimos – o verbo no
pretérito imperfeito quer se referir ao presente. Temos, portanto, uma oposição temporal.
Esta técnica de dizer
indiretamente algo foi muito usada em tempos repressores para burlar a censura
mais rigorosa, ou, com intenção irônica, para deixar que o leitor conclua sem
muita dificuldade o que o autor sugeriu.
Marcus Vinicius Quiroga
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