quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

DIAS INSÓLITOS, O NOVO LIVRO DE MÁRCIO CATUNDA







                                         MÁRCIO CATUNDA



TENTATIVA DE ENTENDER ANTONIN ARTAUD

Criar a sorte, à força de perder a vida.
Enumerar fúrias,
sob o peso do pensamento
e da música que gira: fósforo secreto,
na espiral instantânea.
Fluir na cidade ardente,
neutralizando a angústia,
mediante o conhecimento imediato de si.
Esse foi o resgate e o desperdício
que te embriagou de cosmogonias
e te induziu ao extremo estado de comoção.
Desde então, apaixonado pela vida e pela morte,
consolava-te a ideia de ser um corpo sem órgãos,
livre das trevas absolutas;
a medula desfrutando de raptos furtivos.
Tal foi o preço dos instantes de deslizamento,
em que percebeste o sem sentido das palavras.
Daí te perdeste, na miragem de um cais,
inacessíveis aos tormentos.
Depois de 58 eletrochoques, em Rodez,
acusaste sempre os teus detratores.
Com láudano, em vão,
anestesiavas as feridas
e as instilações dos demônios.
Lutaste contra Deus e contra a psiquiatria.
Falavas de um mal anterior a ti mesmo
e ansiavas pelo delírio febril,
como revés das absurdas esperanças.

Neste texto, Márcio Catunda mostra que poesia também é conhecimento e/ou pesquisa (corpo sem órgãos, Rodez, eletrochoque, psiquiatria), além de ser sempre linguagem (enumerar fúrias / fósforo secreto na espiral instantânea/  miragem de um cais, inacessíveis aos tormentos...).
Escreva um poema sobre alguém, revelando que houve trabalho de pesquisa e cuidado com a linguagem.




Marcus Vinicius Quiroga

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