VERSO
Faço versos leves leves
são versos para brincar
não falo de vidas destruídas
vidas negadas de serem vividas.
Faço versos leves mas tão leves
que se quebram em mil
rimas ao se tocarem.
Não falo do trabalho forçado
do operário desrespeitado
nem de crianças famintas.
Versos leves que de tão leves
parecem feitos para sonhar.
Não falo da violência
se alastrando dos
estupros do corpo
e da mente.
Faço versos versos leves leves leves
de nada falam
os meus versos.
Auricéia
Preterição (ou paralipse)
É uma figura de retórica, uma figura de pensamento denominada preterição. Consiste em tratar um determinado assunto ao mesmo tempo que se afirma que ele será evitado, fingindo que não se quer falar dele
"Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção."
O trecho que acabamos de ler é de Machado de Assis, extraído do "Conto de Escola", uma de suas narrativas mais conhecidas. A citação vem a propósito de comentar uma figura de linguagem de efeito bastante curioso e, às vezes, irônico. Trata-se da preterição (ou paralipse), que, segundo o narrador machadiano, produz "excelente efeito no estilo". Ora, para evitar o autoelogio e, ao mesmo tempo não deixar de fazê-lo, usa o verbo de elocução modificado por uma negativa. Assim, afirma que não vai dizer algo, mas, ao mesmo tempo, o diz.
Certamente, num caso como esse, o discurso aparece revestido de ironia --figura por meio da qual se diz algo com o intuito de exprimir o seu oposto. Embora tenha dito que não contaria algo, na verdade o contou. Seria falso, no entanto, dizer que o recurso sempre se presta à ironia. Para evitar um discurso afetado ou pretensioso, há quem recorra à preterição. Dessa maneira, o assunto surge de maneira enviesada, mas é exatamente pelo fato de ser anunciado como secundário (ser preterido) que a atenção se volta para ele. (texto de Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha)
No caso do poema de Auricéia, a figura é usada para diminuir o impacto da violência do tema e versos como “Versos leves que de tão leves/parecem feitos para sonhar” soam irônicos. Desta forma, a autora tratou do tema, infelizmente tão recorrente em nossa realidade urbana, de modo original, fugindo à denúncia óbvia e mostrou que recursos estilísticos antigos (há o clássico exemplo de Cícero) podem ser usados hoje em dia com expressividade, ao contrário do que julga parte da crítica contemporânea.
Marcus Vinicius Quiroga
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
AINDA SOBRE UMA IMAGEM (A GARRAFA)
GARRAFA VAZIA
SUPONHA
QUE O LÍQUIDO DA CERVEJA
SEJA UM ESPELHO
PONHA-SE
FRENTE A FRENTE
COMO SE O TEMPO
ESTIVESSE A VÊ-LO
NO VAZIO
DA GARRAFA VAZIA
UMA LEMBRANÇA FLUTUA:
O QUE FEZ DA VIDA
QUE NÃO PARECE SUA?
SUPONHA
QUE O LÍQUIDO DA CERVEJA
SE ESPALHE PELA MESA
SINTA COM OS DEDOS
O CONTEÚDO QUE SE ESVAI
O GARÇOM TRAZ
MAIS OUTRA GARRAFA
TUDO PASSA EM SEGUNDOS
UM DESEJO NÃO SE ABAFA
OLHE NO FUNDO DO COPO
DE RELANCE, POR UM TRIZ
O QUE FEZ DA VIDA
QUE NÃO QUIS SER FELIZ?
Lúcio Ferreira
Há poucos dias vimos uma letra de Jim Croce e observamos a imagem da garrafa. Por coincidência, encontrei este texto (poema ou letra?) que também privilegia a imagem. No caso, chamamos atenção outra vez para a materialização (a garrafa) de um sentimento ou sensação de vazio. Um objeto feito para conter, conter líquidos, é usado com a finalidade de falar sobre a ausência, o não contido, ou como diz o texto, metaforicamente, o líquido que se esvai, que se espalha, que se perde.
O objeto do eu lírico serve também para motivar uma reflexão sobre o tempo perdido (esvaído como a cerveja), sobre a vida que não coincide, que não se reconhece no espelho do fundo do copo. No texto embriaguez e lucidez se misturam. A visão ébria não tem lateralidade e muitas vezes não vê o que está perto, mas ao lado.
A visão sóbria pode não ser uma virtude. De qualquer forma, nos lembramos dos versos de Baudelaire que sugere nos embriagarmos de vinho ou de virtude.A sobriedade é branca!
Marcus Vinicius Quiroga
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
IT GOES WITHOUT SAYING!
O EX-GAUCHE
O POETA HOJE TEM AGENTE,
SECRETÁRIA,
ASSESSOR DE IMPRENSA
JÁ NÃO PENSA EM POLÍTICA,
JÁ NÃO PENSA.
CAIU NAS GRAÇAS DA CRÍTICA
E ACUMULA
MEDALHAS DE OURO DAS ACADEMIAS.
O POETA AGORA É ARTISTA POP:
SÓ QUER SABER DA MÍDIA,
E DE SER LÍDER DO IBOPE,
SEU DIA
É PARA ENTREVISTAS,
FESTAS E FOTOGRAFIAS.
JÁ NEM SE LEMBRA DO TEMPO
EM QUE ESCREVIA POESIA.
O POETA HOJE TEM AGENTE,
SECRETÁRIA,
ASSESSOR DE IMPRENSA
JÁ NÃO PENSA EM POLÍTICA,
JÁ NÃO PENSA.
CAIU NAS GRAÇAS DA CRÍTICA
E ACUMULA
MEDALHAS DE OURO DAS ACADEMIAS.
O POETA AGORA É ARTISTA POP:
SÓ QUER SABER DA MÍDIA,
E DE SER LÍDER DO IBOPE,
SEU DIA
É PARA ENTREVISTAS,
FESTAS E FOTOGRAFIAS.
JÁ NEM SE LEMBRA DO TEMPO
EM QUE ESCREVIA POESIA.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
UMA IMAGEM
TIME IN A BOTTLE
Jim Croce
IF I COULD SAVE TIME IN A BOTTLE
THE FIRST THING THAT I'D LIKE TO DO
IS TO SAVE EVERYDAY TILL ETERNITY PASSES AWAY
JUST TO SPEND THEM WITH YOU
IF I COULD MAKE DAYS LAST FOREVER
IF WORDS COULD MAKE WISHES COME TRUE
I'D SAVE EVERYDAY LIKE A TREASURE AND THEN
AGAIN I WOULD SPEND THEM WITH YOU
BUT THERE NEVER SEEMS TO BE ENOUGH TIME
TO DO THE THINGS YOU WANNA DO
ONCE YOU FIND THEM
I LOOKED AROUND ENOUGH TO KNOW
THAT YOUR THE ONE I WANNA GO THRU TIME WITH
IF I HAD A BOX JUST FOR WISHES
AND DREAMS THAT HAD NEVER COME TRUE
THE BOX WOULD BE EMPTY EXCEPT FOR THE MEMORY OF HOW
THEY WERE ANSWERED BY YOU
BUT THERE NEVER SEEMS TO BE ENOUGH TIME
TO DO THE THINGS YOU WANNA DO
ONCE YOU FIND THEM
I LOOKED AROUND ENOUGH TO KNOW
THAT YOUR THE ONE I WANNA GO THRU TIME WITH
O texto (poema ou letra) às vezes se baseia em uma só imagem. Neste caso, o tempo e uma garrafa. Mais uma vez estamos diante do uso do concreto e do abstrato, embora garrafa não nos lembre tempo, Temos, sim, a imagem concreta do tempo engarrafado, representando a imagem do tempo reservado para ser usado em “outro momento”.
Ou, talvez e também, Jim Croce queira nos lembrar da efemeridade do tempo (eterno tema, sem trocadilho), como vemos em “but there never seems to be enough time/to do the things you wanna do/once you find them”.
Na impossibilidade de guardar o tempo, para aproveitá-lo em uma situação melhor, só nos resta (e isto não é pouco) vivê-lo agora da melhor forma possível, pois as garrafas (até as do tempo) quebram.
Jim Croce morreu bem jovem em um acidente. Talvez soubesse (talvez não) que não devemos dizer não ao tempo, não devemos adiar, não devemos esperar. Deixemos a garrafa aberta e que o tempo e as imagens poéticas fluam.
Marcus Vinicius Quiroga
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
LIÇÃO DE POESIA
LIÇÃO SOBRE A ÁGUA (Antônio Gedeão)
Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com exceções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
Reparemos como um poema surge de uma definição denotativa que tem, a princípio, apenas algumas rimas que indicam a intenção de ser poema. E, diga-se de passagem, não são rimas atraentes, mas corriqueiras. Súbito, no verso “Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão”, dá-se a reviravolta, e da denotação passamos para a conotação, com a instalação do poético.
O tema da morte é apresentado de forma extremamente original e não piegas ou sentimentaloide. De uma aparen-temente simples descrição, a da água, o texto, de forma irônica e sutil, refere-se a Ofélia de Shakeaspeare; da página de um dicionário para a tragédia teatral.
Acreditamos que, se no lugar de Ofélia fosse um nome qualquer, o poema perderia em parte o seu propósito, mas, mesmo assim, causaria efeito, pois falaria da morte através da definição da água. Sem criar suspense, o poeta só revela o verdadeiro objeto de seu texto nos quatro versos finais. Isto nos lembra que faz parte da literatura falar de uma coisa para querer dizer outra.
Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com exceções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
Reparemos como um poema surge de uma definição denotativa que tem, a princípio, apenas algumas rimas que indicam a intenção de ser poema. E, diga-se de passagem, não são rimas atraentes, mas corriqueiras. Súbito, no verso “Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão”, dá-se a reviravolta, e da denotação passamos para a conotação, com a instalação do poético.
O tema da morte é apresentado de forma extremamente original e não piegas ou sentimentaloide. De uma aparen-temente simples descrição, a da água, o texto, de forma irônica e sutil, refere-se a Ofélia de Shakeaspeare; da página de um dicionário para a tragédia teatral.
Acreditamos que, se no lugar de Ofélia fosse um nome qualquer, o poema perderia em parte o seu propósito, mas, mesmo assim, causaria efeito, pois falaria da morte através da definição da água. Sem criar suspense, o poeta só revela o verdadeiro objeto de seu texto nos quatro versos finais. Isto nos lembra que faz parte da literatura falar de uma coisa para querer dizer outra.
domingo, 25 de setembro de 2011
O SIMBÓLICO
CORRIDA DE CEM METROS
Vejamos o mundo.
Exércitos, lugares onde se sofre,
sacrifícios da mãe pelos quatro filhos, o erudito de óculos a
examinar
o filme pornográfico,
o velho de passo lentíssimo com um casaco exagerado,
uma criança a troçar de outra mais fraca,
o casal a discutir por causa do ruído dos pés de um
e da sensibilidade do ouvido do outro,
e no meio de tantos factos e de tão diversas possibilidades,
oito homens com calças curtas e números nas costas
correm cem metros
- nem um centímetro a mais- e ganham ou perdem.
E uma vitória, por exemplo, pode levar alguém a curvar-se
e a chorar. E o assunto são cem metros de espaço no Mundo.
Pensa, por exemplo, no espaço de um país
ou no espaço da tua casa,
ou no espaço que percorres atrás da rapariga
que te largou a mão no meio da cidade;
porém nada mais há em alguns instantes, para esses homens,
além de: cem metros. Cem metros de espaço no planeta.
Vejamos, pois, o Mundo outra vez.
Como quem lê pela segunda vez um livro. Voltemos atrás.
Vejamos onde o homem perdeu a razão.
Em que momento.
Gonçalo M. Tavares
No texto acima, Gonçalo mostra que uma simples corrida de cem metros pode fazer com que homens chorem de felicidade pela vitória, enquanto o mundo se autodestrói em guerras e em outras tantas crueldades. Ora, como pode uma simples corrida de cem metros ser capaz de dar alegria ao homem, quando há tantos problemas sérios no mundo?
Estamos diante de um bom exemplo de como o simbólico atua sobre nós. A corrida é de fato insignificante, mas ela foi investida de um valor simbólico que a transforma em um objetivo de vida, cuja conquista, ainda que ridícula, faz com que o vencedor se sinta um herói e pense que todos têm admiração por seu, supostamente grande, feito.
Repito: este é só um exemplo. Pensemos no simbólico de maneira mais geral e ele sem dúvida, está presente na criação literária e na chamada vida literária. Esta, sim, é, desafortunadamente, repleta de
valores simbólicos que interferem na criação e na crítica.
Quais são os “cem metros” que nos cegam? Um escritor precisa se ver livre destes desvios. As matanças no Iraque ou no Afeganistão, por exemplo, são maiores que as técnicas narrativas modernosas, mas quem se importa?
Vejamos o mundo.
Exércitos, lugares onde se sofre,
sacrifícios da mãe pelos quatro filhos, o erudito de óculos a
examinar
o filme pornográfico,
o velho de passo lentíssimo com um casaco exagerado,
uma criança a troçar de outra mais fraca,
o casal a discutir por causa do ruído dos pés de um
e da sensibilidade do ouvido do outro,
e no meio de tantos factos e de tão diversas possibilidades,
oito homens com calças curtas e números nas costas
correm cem metros
- nem um centímetro a mais- e ganham ou perdem.
E uma vitória, por exemplo, pode levar alguém a curvar-se
e a chorar. E o assunto são cem metros de espaço no Mundo.
Pensa, por exemplo, no espaço de um país
ou no espaço da tua casa,
ou no espaço que percorres atrás da rapariga
que te largou a mão no meio da cidade;
porém nada mais há em alguns instantes, para esses homens,
além de: cem metros. Cem metros de espaço no planeta.
Vejamos, pois, o Mundo outra vez.
Como quem lê pela segunda vez um livro. Voltemos atrás.
Vejamos onde o homem perdeu a razão.
Em que momento.
Gonçalo M. Tavares
No texto acima, Gonçalo mostra que uma simples corrida de cem metros pode fazer com que homens chorem de felicidade pela vitória, enquanto o mundo se autodestrói em guerras e em outras tantas crueldades. Ora, como pode uma simples corrida de cem metros ser capaz de dar alegria ao homem, quando há tantos problemas sérios no mundo?
Estamos diante de um bom exemplo de como o simbólico atua sobre nós. A corrida é de fato insignificante, mas ela foi investida de um valor simbólico que a transforma em um objetivo de vida, cuja conquista, ainda que ridícula, faz com que o vencedor se sinta um herói e pense que todos têm admiração por seu, supostamente grande, feito.
Repito: este é só um exemplo. Pensemos no simbólico de maneira mais geral e ele sem dúvida, está presente na criação literária e na chamada vida literária. Esta, sim, é, desafortunadamente, repleta de
valores simbólicos que interferem na criação e na crítica.
Quais são os “cem metros” que nos cegam? Um escritor precisa se ver livre destes desvios. As matanças no Iraque ou no Afeganistão, por exemplo, são maiores que as técnicas narrativas modernosas, mas quem se importa?
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
A POESIA É RELAÇÃO!
A POEIRA DO TEMPO
Sentada na casa corto as unhas
dezoito andares acima de Jerusalém.
Levanto o olhar
a cúpula cintila em ouro e sol
a clara muralha defende o que está salvo.
Todos os dias
as minhas unhas crescem
E eu as corto sem recolher aparas.
Mais lento parece o alterar-se
das muralhas.
No entanto
todos os dias a história recolhe
a poeira
de suas pedras
Marina Colasanti
COM DANTE
Neste Castelo de Gargonza
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isso foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
- e da poesia.
Affonso Romano de Sant’anna
Que o casal me perdoe, caso incorra em equívoco, ao escolher estes dois textos para mostrar a influência/confluência entre dois escritores, que, por acaso, são marido e mulher. Relendo os poemas, penso se não foi a palavra “pedra” que fez com que eu me lembrasse em particular destes dois textos. Talvez. Mas acho que há outras coisas ambos são curtos, com versos livres e quase todos brancos; ambos têm referências externas (Jerusalém e castelo em Gargonza); ambos têm dois momentos (Em “No entanto“ e em “o que é nada” dá-se a “reviravolta” poética; ambos se referem ao tempo (todos os dias. ainda há pouco, há oito séculos) e, especialmente, ao tempo histórico; ambos unem o abstrato com o concreto (a abstrata história recolhe a concreta poeira; a noção abstrata de oito séculos diante das pedras).
Difere o poema de Affonso porque, em seu final, confronta o tempo de oito séculos com a abstrata e/ou concreta (no bom sentido, é claro) poesia.
Ambos mostram como as coisas são relativas, mas, no segundo texto, o relativismo se acentua porque a comparação se dá também com a poesia (a história da poesia? a série literária? a poesia que existe em tudo e não só nos poemas?...) E, se lermos a poeira do 1º texto também como metafórica, ela se aproximará da poesia e deixará de ser concreta. Agora me pergunto se não seria a poesia uma espécie de poeira (e quase um anagrama) que se fixa no branco das páginas e que se espalha pelo ar dos séculos e das histórias.
Marcus Vinicius Quiroga
Sentada na casa corto as unhas
dezoito andares acima de Jerusalém.
Levanto o olhar
a cúpula cintila em ouro e sol
a clara muralha defende o que está salvo.
Todos os dias
as minhas unhas crescem
E eu as corto sem recolher aparas.
Mais lento parece o alterar-se
das muralhas.
No entanto
todos os dias a história recolhe
a poeira
de suas pedras
Marina Colasanti
COM DANTE
Neste Castelo de Gargonza
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isso foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
- e da poesia.
Affonso Romano de Sant’anna
Que o casal me perdoe, caso incorra em equívoco, ao escolher estes dois textos para mostrar a influência/confluência entre dois escritores, que, por acaso, são marido e mulher. Relendo os poemas, penso se não foi a palavra “pedra” que fez com que eu me lembrasse em particular destes dois textos. Talvez. Mas acho que há outras coisas ambos são curtos, com versos livres e quase todos brancos; ambos têm referências externas (Jerusalém e castelo em Gargonza); ambos têm dois momentos (Em “No entanto“ e em “o que é nada” dá-se a “reviravolta” poética; ambos se referem ao tempo (todos os dias. ainda há pouco, há oito séculos) e, especialmente, ao tempo histórico; ambos unem o abstrato com o concreto (a abstrata história recolhe a concreta poeira; a noção abstrata de oito séculos diante das pedras).
Difere o poema de Affonso porque, em seu final, confronta o tempo de oito séculos com a abstrata e/ou concreta (no bom sentido, é claro) poesia.
Ambos mostram como as coisas são relativas, mas, no segundo texto, o relativismo se acentua porque a comparação se dá também com a poesia (a história da poesia? a série literária? a poesia que existe em tudo e não só nos poemas?...) E, se lermos a poeira do 1º texto também como metafórica, ela se aproximará da poesia e deixará de ser concreta. Agora me pergunto se não seria a poesia uma espécie de poeira (e quase um anagrama) que se fixa no branco das páginas e que se espalha pelo ar dos séculos e das histórias.
Marcus Vinicius Quiroga
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
À MANEIRA DE
Manuel Bandeira escreveu alguns poemas à maneira de. E este é um exercício. Não devemos ter medo da influência de outros autores, nem de homenageá-los como Bandeira o fez. Picasso, por exemplo, como era comum na pintura, copiou antes de pintar. E se torrou Picasso, é bom lembrar.
Como exercício, aqui vão alguns pequenos textos. Experimentem o mesmo. Escolham alguns autores e façam poemas à maneira de. Não se trata de plágio, apropriação, sample; apenas de um exercício que exige, sim, a fundamental leitura.
À MANEIRA DE QUINTANA
I
Uma canção não se adia
O que se adia
torna-se silêncio.
II
Às vezes, diante de adversidades,nos perguntamos o que fizemos para estarmos naquela situação,quando deveríamos perguntar o que não fizemos.
III
Mandou pôr abaixo
todas as paredes de seu corpo.
Agora, que já era um amplo loft,
deu pela ausência de janelas.
PARÓDIA DE QUINTANA
Há pessoas que passam a vida plantando sementes de pêssego, e, quando o pessegueiro cresce, dizem surpresas: “Mas isto não é um trator!”
À MANEIRA DE LEMINSKI
Das duas uma:
ou você entra no espelho
e sai de lá tonta
ou inventa uma versão
e nunca mais se encontra
À MANEIRA DE G. TAVARES
Foi morar em um reino
cujos arquitetos não sabiam construir pontes.
Tinha, então, uma boa desculpa
para não sair do lugar.
DRUMMONDIANA
A porta trancada
A janela fechada
A luz apagada
A noite arrumada
Quantas rimas e nenhuma solução!
Marcus Vinicius Quiroga
Como exercício, aqui vão alguns pequenos textos. Experimentem o mesmo. Escolham alguns autores e façam poemas à maneira de. Não se trata de plágio, apropriação, sample; apenas de um exercício que exige, sim, a fundamental leitura.
À MANEIRA DE QUINTANA
I
Uma canção não se adia
O que se adia
torna-se silêncio.
II
Às vezes, diante de adversidades,nos perguntamos o que fizemos para estarmos naquela situação,quando deveríamos perguntar o que não fizemos.
III
Mandou pôr abaixo
todas as paredes de seu corpo.
Agora, que já era um amplo loft,
deu pela ausência de janelas.
PARÓDIA DE QUINTANA
Há pessoas que passam a vida plantando sementes de pêssego, e, quando o pessegueiro cresce, dizem surpresas: “Mas isto não é um trator!”
À MANEIRA DE LEMINSKI
Das duas uma:
ou você entra no espelho
e sai de lá tonta
ou inventa uma versão
e nunca mais se encontra
À MANEIRA DE G. TAVARES
Foi morar em um reino
cujos arquitetos não sabiam construir pontes.
Tinha, então, uma boa desculpa
para não sair do lugar.
DRUMMONDIANA
A porta trancada
A janela fechada
A luz apagada
A noite arrumada
Quantas rimas e nenhuma solução!
Marcus Vinicius Quiroga
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
FEBRUARY
(Dar Willians)
I threw your keys in the water, I looked back,
Theyd frozen halfway down in the ice
They froze up so quickly, the keys and their owners,
Even after the anger, it all turned silent, and
The everyday turned solitary,
So we came to february
First we forgot where wed planted those bulbs last year,
Then we forgot that wed planted at all,
Then we forgot what plants are altogether,
And I blamed you for my freezing and forgetting and
The nights were long and cold and scary,
Can we live through february?
You know I think christmas was a long red glare,
Shot up like a warning, we gave presents without cards,
And then the snow,
And then the snow came, we were always out shoveling,
And wed drop to sleep exhausted,
Then wed wake up, and it’s snowing
And february was so long that it lasted into march
And found us walking a path alone together
You stopped and pointed and you said, ’thats a crocus,’
And I said, ’whats a crocus? ’ and you said, ’its a flower,’
I tried to remember, but I said, ’whats a flower? ’
You said, ’i still love you’
The leaves were turning as we drove to the hardware store,
My new lover made me keys to the house,
And when we got home, well we just started chopping wood,
Because you never know how next year will be,
And well gather all our arms can carry,
I have lost to february
Escutando a canção de Dar Willians, lembrei-me de um tema de que tenho falado com certa frequência nas oficinas: o uso criativo ou expressivo das rimas. Por gostar delas, lamento quem as usa de forma burocrática ou quem as ignore, por vê-las como característica de poema passadista, e sempre chamo a atenção de que elas podem colaborar para a composição do poema, ou, se gastas e previsíveis, podem também enfraquecer o texto.
Fazer poemas com rima ou sem rima é fácil, fazê-los com rimas que tenham uma função verdadeiramente poética é que são elas. Se eu rimar, só por rimar, não tenho mérito; se eu simplesmente não rimar, fugindo ao desafio da criatividade, também não tenho méritos.
Hélcio Martins fez um excelente estudo sobre as rimas em Drummond, que só tem 14% dos seus poemas com rima, o que faz com que o uso tão parcimonioso da rima pelo poeta seja mais significativo.
Sendo February uma letra de música, não um poema, há uma espécie de refrão, em que o segundo verso usa a palavra que dá título à canção. Neste caso, o verso anterior apresenta uma rima com february. Tais rimas nos finais das estrofes fazem com que os versos sejam melhor memorizados e, portanto, valorizam o conteúdo destes finais. Ou seja, estas rimas têm um efeito poético e uma razão de ser. Atentemos para muitos poemas que só apresentam rimas no final da estrofe ou do poema.
Para entendermos esta letra e suas imagens, temos que lembrar que ela se refere às estações no hemisfério norte. Logo February fala sobre o inverno. Melhor, sobre o período mais rigoroso do inverno.
O mês aqui adquire a conotação de frio, gelo e neve, palavras que, na letra, passam da visualização concreta para a significação abstrata. Aliás. observemos no trecho abaixo como as palavras destacadas podem, depois de lidas denotativamente, serem lidas conotativamente, enriquecendo os sentidos latentes na letra.
My new lover made me keys to the house,
And when we got home, well we just started chopping wood,
Because you never know how next year will be,
And well gather all our arms can carry,
I have lost to february
terça-feira, 30 de agosto de 2011
EIS O POEMA SEGREDO. NÃO CONTE.
SEGREDO
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
Carlos Drummond de Andrade
O texto de Drummond serve para muitas discussões. Poderíamos parar no primeiro verso e aceitar que de fato a poesia seja incomunicável ou, discordar, e pensar que é só (só?) uma afirmação poética e que, portanto, não deve ser lida literalmente.
Ou poderíamos refletir sobre a incomunicabilidade. Seria a poesia mesmo incomunicável? O que alcança o leitor? Ou há textos mais (in)comunicáveis do que outros?
Um misantropo de plantão diria que tudo é incomunicável, que não há diálogos, só monólogos. Mas deixemos a misantropia para Molière. E exercitemos a nossa tentativa de comunicação.
Já falamos na “estrutura” do poema como seu esqueleto, sua planta baixa e que ela se dá normalmente por algum tipo de repetição, em cuja forma o conteúdo vai se evidenciando. Por exemplo, no caso, temos uma hipótese (ouço dizer, tudo é possível, suponha) e um imperativo negativo que se repetem. E é nesta negação que reside a força do texto, especialmente quando, na última estrofe, os versos preparam para uma conclusão que é desfeita: os homens pediriam perdão, mas você não deve fazê-lo.
Tortos e gauches em nossos cantos, não pediremos perdão porque a história é uma escolha e como tal não deve ser perdoada.
Marcus Vinicius Quiroga
domingo, 28 de agosto de 2011
AS PAREDES DA LINGUAGEM
A palavra é vista como revelação, e até como epifania. Mas muita vez serve para esconder. Sim, mais esconderijo do que refúgio. Ele tece meia dúzia de metáforas e pronto: o mundo permanece o mesmo e o escritor se sente com um ar de inteligência diante das coisas.
Na análise (ou nas análises) aprendemos que a linguagem trai e que discurso algum é inocente. O discurso é, afinal, o material primeiro da sessão. Antes de nos levar a outros mundos, ele nos leva a ele mesmo. Não se trata de um embate entre dois discursos, o do analista e do analisando, mas de um encontro. Até porque o analisando que quiser escapar pelas palavras é quem perde.
Por mais hábil que seja, o escritor também não engana o leitor. Seu texto aparentemente simbólico pode receber aplausos e afagar sua vaidade. Depois é que são elas.
Nada se faz com aquelas imagens tão atraentes na folha do papel. Do lado de fora a vida não muda. As segundas-feiras são inevitáveis e estão lá sempre à nossa espera.
Matáforas não deveriam servir para adiar a vida. O Fernando, ele-mesmo, morreu no dia 30 de novembro de 1935. O que ainda temos hoje são os poemas de Pessoa, um ser bem mais fictício do que ele supunha.
A linguagem serve não só para os belos poemas líricos escritos e não escritos, serve também para os equívocos, para os textos dúbios, para as frases pretensamente reparadoras do mundo.
Antes as palavras-espelho do que as palavras-biombo.
Marcus Vinicius Quiroga
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Fishing :
(R. Shindell)
Please have a seat. I'm sorry I'm late
I know how long you've had to wait
I did not forget your documents
No time to waste, why not begin?
Here's how it works, I've got these faces
You give them names and I won't deport you
Make sure you face my tape recorder
Make no mistake, this fountain pen
Could put you on a plane by ten
And by the way, your next of kin
I know which house she's hiding in
So now that you know whose skin you're saving
In this photograph, who's this one waving?
I think you know, so speak up, amigo
It says here that by trade you were a fisherman
Well I'll bet you Indians can really reel them in
And if you get the chance
You should try to get up to Lake Michigan
Well maybe, but then again....
Where were we then? Is he your friend?
Well I recommend that you look again
Where does he stay? What is his name?
There is no shame. He'd do the same
So what do you say? I don't have all day
It's up to you. Which will it be
Good citizen or poor campesino?
My dad used to rent us this place in Ontario
He showed us how to cast the line and tie the flies
He used to say that God rewards us for letting the small ones go
Well maybe, but I don't know
Anyway, it's easy to bite. You just take the bait
You can't snap the line
Don't fight the hook
Hurts less if you don't try to dive
Senor, as you know I was a fisherman
And how full the nets came in
We hauled them up by hand
But when we fled, I left them just out past the coral reefs
They're waiting there for me
Running deep
Ouvindo Joan Baez, o ritmo da canção Fishing me fisgou e fez com que eu prestasse atenção na letra. Ao querer entender o porquê do título, encontrei a duplicidade da imagem em fishing. Trata-se de pesca em sentidos diversos: um literal e outro, metafórico.
A letra é um diálogo entre dois sujeitos: um “pescou” o outro e em seu interrogatório fala praticamente sozinho, já que ele é o “pescador”; o “peixe, ameaçado e coagido, permanece calado por mais tempo.
As palavras adquirem significados que navegam de verso para verso e a canção, com um ritmo que destoa da letra, dá um tom irônico ao que é dito. De outro modo, a música aqui torna-se significante de outro significado. Imagine-se dançando ao som de uma letra que trata de ameaça e violência. Você conseguiria?
Ficam a ordem e o medo no ar:
Anyway, it's easy to bite. You just take the bait
You can't snap the line
Don't fight the hook
Hurts less if you don't try to dive
Será que o rock dançante não tem a intenção de mostrar a alienação de quem escuta sem ouvir o que é dito? Que tal uma reportagem sobre as recentes mortes no Pará com o som disco
do famigerado e brega Abba do final dos 70?
E tome polca.
Pescou?
Marcus Vinicius Quiroga
(R. Shindell)
Please have a seat. I'm sorry I'm late
I know how long you've had to wait
I did not forget your documents
No time to waste, why not begin?
Here's how it works, I've got these faces
You give them names and I won't deport you
Make sure you face my tape recorder
Make no mistake, this fountain pen
Could put you on a plane by ten
And by the way, your next of kin
I know which house she's hiding in
So now that you know whose skin you're saving
In this photograph, who's this one waving?
I think you know, so speak up, amigo
It says here that by trade you were a fisherman
Well I'll bet you Indians can really reel them in
And if you get the chance
You should try to get up to Lake Michigan
Well maybe, but then again....
Where were we then? Is he your friend?
Well I recommend that you look again
Where does he stay? What is his name?
There is no shame. He'd do the same
So what do you say? I don't have all day
It's up to you. Which will it be
Good citizen or poor campesino?
My dad used to rent us this place in Ontario
He showed us how to cast the line and tie the flies
He used to say that God rewards us for letting the small ones go
Well maybe, but I don't know
Anyway, it's easy to bite. You just take the bait
You can't snap the line
Don't fight the hook
Hurts less if you don't try to dive
Senor, as you know I was a fisherman
And how full the nets came in
We hauled them up by hand
But when we fled, I left them just out past the coral reefs
They're waiting there for me
Running deep
Ouvindo Joan Baez, o ritmo da canção Fishing me fisgou e fez com que eu prestasse atenção na letra. Ao querer entender o porquê do título, encontrei a duplicidade da imagem em fishing. Trata-se de pesca em sentidos diversos: um literal e outro, metafórico.
A letra é um diálogo entre dois sujeitos: um “pescou” o outro e em seu interrogatório fala praticamente sozinho, já que ele é o “pescador”; o “peixe, ameaçado e coagido, permanece calado por mais tempo.
As palavras adquirem significados que navegam de verso para verso e a canção, com um ritmo que destoa da letra, dá um tom irônico ao que é dito. De outro modo, a música aqui torna-se significante de outro significado. Imagine-se dançando ao som de uma letra que trata de ameaça e violência. Você conseguiria?
Ficam a ordem e o medo no ar:
Anyway, it's easy to bite. You just take the bait
You can't snap the line
Don't fight the hook
Hurts less if you don't try to dive
Será que o rock dançante não tem a intenção de mostrar a alienação de quem escuta sem ouvir o que é dito? Que tal uma reportagem sobre as recentes mortes no Pará com o som disco
do famigerado e brega Abba do final dos 70?
E tome polca.
Pescou?
Marcus Vinicius Quiroga
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
OFICINA DE POESIA NA ESTAÇÃO DAS LETRAS
A Poesia e suas técnicas
Ementa
O curso é oferecido em módulos independentes e complementares. O propósito é familiarizar o aluno com as diversas técnicas da escrita, tendo seu foco voltado para o processo criativo e ficcional. Cada um dos cursos tem duração de quatro aulas (12hs).
Professor
Marcus Vinicius Quiroga -Poeta, contista, crítico, Doutor em Literatura Brasileira, membro do PEN Clube do Brasil e da Academia Carioca de Letras. Autor de 11 livros de poesia, como O xadrez e as palavras, Campo de trigo maduro e Manual de instruções para cegos. Recebeu prêmios da CBL (Jabuti), da Fundação Biblioteca Nacional e da UBE (Rio e São Paulo), entre outros.
Agenda
Período e horários
De: 06/08 a 27/08 sábados das 10h às 13h
Carga horária – 12hs / aula
Valores
R$300,00
Inscrições:
As reservas podem ser feitas:
- pelo telefone (21) 32373947
- no local: Rua Marquês de Abrantes, 177 – Ljs 107/108 (Flamengo)
Descontos:
- Professores e universitários têm 50% de desconto na maioria dos cursos. As vagas são limitadas.
Certificados:
Serão fornecidos certificados aos participantes que obtiverem 75% de presença.
.
Estação das Letras - Rua Marquês de Abrantes, 177 - Lojas 107/108 Flamengo - Rio de Janeiro - RJ :: CEP: 22230-060 :: Telefone: (21) 3237-3947
Ementa
O curso é oferecido em módulos independentes e complementares. O propósito é familiarizar o aluno com as diversas técnicas da escrita, tendo seu foco voltado para o processo criativo e ficcional. Cada um dos cursos tem duração de quatro aulas (12hs).
Professor
Marcus Vinicius Quiroga -Poeta, contista, crítico, Doutor em Literatura Brasileira, membro do PEN Clube do Brasil e da Academia Carioca de Letras. Autor de 11 livros de poesia, como O xadrez e as palavras, Campo de trigo maduro e Manual de instruções para cegos. Recebeu prêmios da CBL (Jabuti), da Fundação Biblioteca Nacional e da UBE (Rio e São Paulo), entre outros.
Agenda
Período e horários
De: 06/08 a 27/08 sábados das 10h às 13h
Carga horária – 12hs / aula
Valores
R$300,00
Inscrições:
As reservas podem ser feitas:
- pelo telefone (21) 32373947
- no local: Rua Marquês de Abrantes, 177 – Ljs 107/108 (Flamengo)
Descontos:
- Professores e universitários têm 50% de desconto na maioria dos cursos. As vagas são limitadas.
Certificados:
Serão fornecidos certificados aos participantes que obtiverem 75% de presença.
.
Estação das Letras - Rua Marquês de Abrantes, 177 - Lojas 107/108 Flamengo - Rio de Janeiro - RJ :: CEP: 22230-060 :: Telefone: (21) 3237-3947
quarta-feira, 13 de julho de 2011
QUEM TEM MEDO DA TÉCNICA?
A Quevedo
Hoje que o engenho não tem praça,
que a poesia se quer mais que arte
e se denega a parte
do engenho em sua traça,
nos mostra teu travejamento
que é possível abolir o lance,
o que é acaso, chance,
mais: que o fazer é engenho.
João Cabral
Hoje que o engenho não tem praça,
que a poesia se quer mais que arte
e se denega a parte
do engenho em sua traça,
nos mostra teu travejamento
que é possível abolir o lance,
o que é acaso, chance,
mais: que o fazer é engenho.
João Cabral
segunda-feira, 11 de julho de 2011
O LITERÁRIO E O "LITERÁRIO"
ALGUNS TOUREIROS
João Cabral de Melo Neto
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema
João Cabral de Melo Neto
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema
quarta-feira, 6 de julho de 2011
LEIAM PORTAIS, DE VÂNIA DE MAGALHÃES
PARQUE VAZIO
Parque vazio
momentos de chuva
hoje as árvores não cantam
Não há vento
Tudo queda inerte
Trago em silêncio
apatia e luz
dores da inércia
Tumulto solitário
Os anjos dourados
não nos visitam mais
Sobre os meus ombros
a manhã cinzenta desliza
Não há ninguém nos gramados
Chove como se fosse
a primeira tempestade
Vânia Magalhães
No sintagma “parque vazio” uma oposição: parque sugere espaço aberto e amplo, portanto, de muitas pessoas; parque é lugar de pra-zer, de alegria; parque pode ser parque de diversões e, então, lugar de festa e de infância...No entanto, este parque se encontra vazio e repleto de negações (árvores não cantam; não há vento;anjos não nos visitam; ninguém nos gramados), além de palavras que indicam imobilidade (inerte, apatia, silêncio, inércia). Esta oposição reaparece em “tumulto solitário”, o verso conclusivo da primeira estrofe.
Neste dia, em que o cinzento predomina sobre o dourado, o eu líri-co se mostra em comunhão com a natureza que chove e que, talvez por isto, tenha afugentado as pessoas do “parque”. No símile dos versos finais, vemos a insinuação de que aquela não é a primeira “tempestade” e certamente não seria a última. Cabe aqui lembrarmos que as tempestades, tanto as físicas quanto as simbólicas, servem também para lavar o corpo e os acontecimentos.
De olhos lavados, podemos ver coisas diferentes e seguir livres da infância, dos parques e também dos anjos.
Marcus Vinicius Quiroga
Parque vazio
momentos de chuva
hoje as árvores não cantam
Não há vento
Tudo queda inerte
Trago em silêncio
apatia e luz
dores da inércia
Tumulto solitário
Os anjos dourados
não nos visitam mais
Sobre os meus ombros
a manhã cinzenta desliza
Não há ninguém nos gramados
Chove como se fosse
a primeira tempestade
Vânia Magalhães
No sintagma “parque vazio” uma oposição: parque sugere espaço aberto e amplo, portanto, de muitas pessoas; parque é lugar de pra-zer, de alegria; parque pode ser parque de diversões e, então, lugar de festa e de infância...No entanto, este parque se encontra vazio e repleto de negações (árvores não cantam; não há vento;anjos não nos visitam; ninguém nos gramados), além de palavras que indicam imobilidade (inerte, apatia, silêncio, inércia). Esta oposição reaparece em “tumulto solitário”, o verso conclusivo da primeira estrofe.
Neste dia, em que o cinzento predomina sobre o dourado, o eu líri-co se mostra em comunhão com a natureza que chove e que, talvez por isto, tenha afugentado as pessoas do “parque”. No símile dos versos finais, vemos a insinuação de que aquela não é a primeira “tempestade” e certamente não seria a última. Cabe aqui lembrarmos que as tempestades, tanto as físicas quanto as simbólicas, servem também para lavar o corpo e os acontecimentos.
De olhos lavados, podemos ver coisas diferentes e seguir livres da infância, dos parques e também dos anjos.
Marcus Vinicius Quiroga
domingo, 3 de julho de 2011
A LISTA
Oswaldo Montenegro
Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
hoje acreditam que amam você?
Ouvindo um DVD de Oswaldo Montenegro, prestei atenção à letra e ela me lembrou a questão da empatia. Trata-se de uma letra direta, quase que inteiramente denotativa, em que o autor está mais interessado em dizer algo do que na forma poética como diz. Aliás, este é um fato que ocorre com boa parte das letras de nosso cancioneiro.
Com exceção da metáfora “no espelho do agora”, o texto é simples e referencial, mas cumpre o seu objetivo: o de nos fazer pensar sobre o tema da canção, daí a empatia prevalecendo sobre a poesia.
Fazer uma lista pode parecer coisa de livro de autoajuda, mas o fato é que, quando escrevemos algo, é mais difícil mentirmos para nós mesmos, portanto fazer listas é útil e funciona como o espelho, citado posteriormente.
Então, vamos lá: Quem são nossos grandes amigos? Não vale apenas parente, conhecido, colega de trabalho ou ex-colega de escola. Pensemos só em grandes amigos, como confidentes, com os quais temos liberdade para telefonar a qualquer hora e de pedir qualquer coisa sem constrangimento.
Agora vamos à segunda parte: Quantos ainda vemos? Quantos ainda sentam conosco à mesa de um bar? Quantos ainda frequentam a nossa casa? Quantos ainda nos telefonam? Quantos ainda nos escrevem (carta, bilhete, e-mail)?
Não paremos, não. Agora é a vez dos sonhos. Quantos são reescritos nas agendas há décadas? Quantos nos realizamos? Quantos se perderam no caminho? Quantos – cremos- ainda poderão ser alcançados?
E tomemos mais perguntas: Quantos amores, afetos, afeições conseguimos preservar? Quantos amigos jogamos fora? E quantos nos jogaram? Quantos afetos tiveram que desaparecer para que outros surgissem? De quantas vidas desaparecemos para que elas seguissem seus caminhos? Quantos encontros e desencontros nos formaram e nos fragmentaram?
Quantos amores e amigos já morreram lenta ou inesperadamente? Quantos nós já enterramos ou quantos ainda esperam por Antígona? Quantos nos ensinaram a fragilidade do tempo?
E por falar em tempo, que tal pensarmos sobre as coisas que um dia julgávamos importante e que hoje são tão tolas? E também sobre aquelas que permanecem importantes, porque não mudaram, porque não mudamos...
Agradam-me particularmente os versos: “Quantos defeitos sanados com o tempo / Eram o melhor que havia em você?”, porque me irritam, também particularmente, palavras como defeitos e qualidades. São palabras típicas de pessoas inseguras que se dizem “perfeccionistas”, só para insinuar que os outros fazem tudo errado...
Bem, voltemos ao que interessa: “Quantos defeitos sanados com o tempo/ Eram o melhor que havia em você?”. Estes versos nos fazem pensar sobre o que é ou não defeito e que a “correção” de certos “defeitos” por questões sociais, familiares, profissionais, conjugais etc serve apenas para nos afastar de nós mesmos. Lembro aqui de A flor e a náusea, de Drummond: “o menino de 1918 chamavam anarquista./ Porém meu ódio é o melhor de mim. /Com ele me salvo/ e dou a poucos uma esperança mínima”
Embora estejam na terceira estrofe, os versos “Onde você ainda se reconhece?/Na foto passada ou no espelho de agora?/ Hoje é do jeito que achou que seria?” são o clímax da letra, pois amigos, sonhos, amores, mistérios, segredos, tudo faz com que nós nos vejamos e pensemos se é possivel nos reconhecer ou se, mais do que perder amizades, nos perdemos. Não nos reconhecermos no “espelho do agora” é o pior que pode nos acontecer; já na foto passada, certamente não estamos mais, pois o tempo já passou e os acontecimentos ficaram para trás, ainda que eternos (eu prefiro dizer históricos) dentro de nós.
Somos do jeito que achávamos que seríamos? Não? Por que não? O que não fizemos? O que desfizemos? O que escolhemos? O que abandonamos? O que preterimos? O que elegemos?
Na verdade, o grande tema desta canção é o tempo, a passagem do tempo e suas mudanças. Fazer estas listas pessoais também serve para mostrar que tudo muda e não temos que olhar para estas mudanças necessarimente com nostalgia, arrependimento, remorso ou pesar. As coisas mudaram porque quisemos que isto acontecesse. Não somos vítimas do tempo, mas seus agentes.
Guardar álbuns e mais álbuns não nos impede de envelhecermos nem de nos perdermos de nós mesmos. São só imagens. E um porão (ou sótão) cheio de álbuns e poeira talvez nos nos leve de volta a nós mesmos, se for esta a nossa intenção.
Esta letra-balanço sem dúvida insinua que na contabilidade da vida a coluna de perdas foi grande e que nós fomos, é claro, os responsáveis por boa parte delas. Mas seu tom não é de lamúria, mas de reflexão, reflexão que deve conduzir à ação.
Talvez alguns, após ouvi-la, pensem em se reconciliar com antigos amigos; cá eu penso que ela incita a que nos reconciliemos com nós mesmos. Ou seja, que respondamos a tantas perguntas (a estas e a outras tantas) e reflitamos sobre o tempo e o espelho ou, sobre o tempo-espelho. Provavelmente quando abrimos mão de pessoas e de coisas (e até de “sonhos”) o fizemos para não abrirmos mão de nós mesmos. Se muitos de nós se identificam tanto com tais versos é porque a identidade é nossa maior questão.
E que haja sempre uma mínima esperança drummondiana para romper o asfalto, todo tipo de asfalto.
Oswaldo Montenegro
Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
hoje acreditam que amam você?
Ouvindo um DVD de Oswaldo Montenegro, prestei atenção à letra e ela me lembrou a questão da empatia. Trata-se de uma letra direta, quase que inteiramente denotativa, em que o autor está mais interessado em dizer algo do que na forma poética como diz. Aliás, este é um fato que ocorre com boa parte das letras de nosso cancioneiro.
Com exceção da metáfora “no espelho do agora”, o texto é simples e referencial, mas cumpre o seu objetivo: o de nos fazer pensar sobre o tema da canção, daí a empatia prevalecendo sobre a poesia.
Fazer uma lista pode parecer coisa de livro de autoajuda, mas o fato é que, quando escrevemos algo, é mais difícil mentirmos para nós mesmos, portanto fazer listas é útil e funciona como o espelho, citado posteriormente.
Então, vamos lá: Quem são nossos grandes amigos? Não vale apenas parente, conhecido, colega de trabalho ou ex-colega de escola. Pensemos só em grandes amigos, como confidentes, com os quais temos liberdade para telefonar a qualquer hora e de pedir qualquer coisa sem constrangimento.
Agora vamos à segunda parte: Quantos ainda vemos? Quantos ainda sentam conosco à mesa de um bar? Quantos ainda frequentam a nossa casa? Quantos ainda nos telefonam? Quantos ainda nos escrevem (carta, bilhete, e-mail)?
Não paremos, não. Agora é a vez dos sonhos. Quantos são reescritos nas agendas há décadas? Quantos nos realizamos? Quantos se perderam no caminho? Quantos – cremos- ainda poderão ser alcançados?
E tomemos mais perguntas: Quantos amores, afetos, afeições conseguimos preservar? Quantos amigos jogamos fora? E quantos nos jogaram? Quantos afetos tiveram que desaparecer para que outros surgissem? De quantas vidas desaparecemos para que elas seguissem seus caminhos? Quantos encontros e desencontros nos formaram e nos fragmentaram?
Quantos amores e amigos já morreram lenta ou inesperadamente? Quantos nós já enterramos ou quantos ainda esperam por Antígona? Quantos nos ensinaram a fragilidade do tempo?
E por falar em tempo, que tal pensarmos sobre as coisas que um dia julgávamos importante e que hoje são tão tolas? E também sobre aquelas que permanecem importantes, porque não mudaram, porque não mudamos...
Agradam-me particularmente os versos: “Quantos defeitos sanados com o tempo / Eram o melhor que havia em você?”, porque me irritam, também particularmente, palavras como defeitos e qualidades. São palabras típicas de pessoas inseguras que se dizem “perfeccionistas”, só para insinuar que os outros fazem tudo errado...
Bem, voltemos ao que interessa: “Quantos defeitos sanados com o tempo/ Eram o melhor que havia em você?”. Estes versos nos fazem pensar sobre o que é ou não defeito e que a “correção” de certos “defeitos” por questões sociais, familiares, profissionais, conjugais etc serve apenas para nos afastar de nós mesmos. Lembro aqui de A flor e a náusea, de Drummond: “o menino de 1918 chamavam anarquista./ Porém meu ódio é o melhor de mim. /Com ele me salvo/ e dou a poucos uma esperança mínima”
Embora estejam na terceira estrofe, os versos “Onde você ainda se reconhece?/Na foto passada ou no espelho de agora?/ Hoje é do jeito que achou que seria?” são o clímax da letra, pois amigos, sonhos, amores, mistérios, segredos, tudo faz com que nós nos vejamos e pensemos se é possivel nos reconhecer ou se, mais do que perder amizades, nos perdemos. Não nos reconhecermos no “espelho do agora” é o pior que pode nos acontecer; já na foto passada, certamente não estamos mais, pois o tempo já passou e os acontecimentos ficaram para trás, ainda que eternos (eu prefiro dizer históricos) dentro de nós.
Somos do jeito que achávamos que seríamos? Não? Por que não? O que não fizemos? O que desfizemos? O que escolhemos? O que abandonamos? O que preterimos? O que elegemos?
Na verdade, o grande tema desta canção é o tempo, a passagem do tempo e suas mudanças. Fazer estas listas pessoais também serve para mostrar que tudo muda e não temos que olhar para estas mudanças necessarimente com nostalgia, arrependimento, remorso ou pesar. As coisas mudaram porque quisemos que isto acontecesse. Não somos vítimas do tempo, mas seus agentes.
Guardar álbuns e mais álbuns não nos impede de envelhecermos nem de nos perdermos de nós mesmos. São só imagens. E um porão (ou sótão) cheio de álbuns e poeira talvez nos nos leve de volta a nós mesmos, se for esta a nossa intenção.
Esta letra-balanço sem dúvida insinua que na contabilidade da vida a coluna de perdas foi grande e que nós fomos, é claro, os responsáveis por boa parte delas. Mas seu tom não é de lamúria, mas de reflexão, reflexão que deve conduzir à ação.
Talvez alguns, após ouvi-la, pensem em se reconciliar com antigos amigos; cá eu penso que ela incita a que nos reconciliemos com nós mesmos. Ou seja, que respondamos a tantas perguntas (a estas e a outras tantas) e reflitamos sobre o tempo e o espelho ou, sobre o tempo-espelho. Provavelmente quando abrimos mão de pessoas e de coisas (e até de “sonhos”) o fizemos para não abrirmos mão de nós mesmos. Se muitos de nós se identificam tanto com tais versos é porque a identidade é nossa maior questão.
E que haja sempre uma mínima esperança drummondiana para romper o asfalto, todo tipo de asfalto.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
O PROSAICO E O POÉTICO
Cena Familiar
Affonso Romano de Sant'Anna
Densa e doce paz na semiluz da sala.
Na poltrona, enroscada e absorta,
uma filhadesenha patos e flores.
Sobre o couro, no chão,
a outra viaja silenciosanas artimanhas do espião.
Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura
flamenga, desenhando, bordando pontos de paz.
Da mesa as contemplo e anoto a felicidade
que transborda da moldura do poema.
A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos,
relembranças de viagens e a lareira acesa.
Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros,
é uma nave iluminada.
Um oboé de Mozart torna densa a eternidade
Observemos esta cena familiar que, a princípio descritiva,vai, aos poucos, se tornando poética. No verso “ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura”, já temos o verbo iluminar, desfazendo o discurso referencial.
A partir daí, outras imagens vão surgindo: bordar pontos de paz, transbordar da moldura do poema ...
Mas é nos versos finais que o prosaico (a cena familiar que se dá em inúmeras casas) se faz poético, com a metáfora casa: nave iluminada e com a música de Mozart dando àquele momento status de eternidade.
Marcus Vinicius Quiroga
Affonso Romano de Sant'Anna
Densa e doce paz na semiluz da sala.
Na poltrona, enroscada e absorta,
uma filhadesenha patos e flores.
Sobre o couro, no chão,
a outra viaja silenciosanas artimanhas do espião.
Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura
flamenga, desenhando, bordando pontos de paz.
Da mesa as contemplo e anoto a felicidade
que transborda da moldura do poema.
A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos,
relembranças de viagens e a lareira acesa.
Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros,
é uma nave iluminada.
Um oboé de Mozart torna densa a eternidade
Observemos esta cena familiar que, a princípio descritiva,vai, aos poucos, se tornando poética. No verso “ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura”, já temos o verbo iluminar, desfazendo o discurso referencial.
A partir daí, outras imagens vão surgindo: bordar pontos de paz, transbordar da moldura do poema ...
Mas é nos versos finais que o prosaico (a cena familiar que se dá em inúmeras casas) se faz poético, com a metáfora casa: nave iluminada e com a música de Mozart dando àquele momento status de eternidade.
Marcus Vinicius Quiroga
quarta-feira, 15 de junho de 2011
A LINGUAGEM E SEUS FRACASSOS
ASSIM COMO
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade, Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada. Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada. Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença. Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
Alberto Caeiro
O poema de Pessoa ilustra a questão do fracasso da linguagem, ou da entropia, quando o pensamento se torna palavra, como se esta nunca atingisse a total identidade com aquele.
Em um poema temos a relação entre pensamento, linguagem e realidade. Logo podemos ter distância entre pensamento e linguagem, e entre linguagem e realidade.
Um poema não é o que poeta quis dizer, mas o que ele disse e como ele disse. Um poema não é uma mensagem emitida verticalmente
O jogo de palavras dos primeiros versos, por exemplo, é um modo de dizer algo, e não apenas este “algo”.
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade, Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada. Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada. Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença. Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
Alberto Caeiro
O poema de Pessoa ilustra a questão do fracasso da linguagem, ou da entropia, quando o pensamento se torna palavra, como se esta nunca atingisse a total identidade com aquele.
Em um poema temos a relação entre pensamento, linguagem e realidade. Logo podemos ter distância entre pensamento e linguagem, e entre linguagem e realidade.
Um poema não é o que poeta quis dizer, mas o que ele disse e como ele disse. Um poema não é uma mensagem emitida verticalmente
O jogo de palavras dos primeiros versos, por exemplo, é um modo de dizer algo, e não apenas este “algo”.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
INTERPRETAÇÕES, SEMPRE NO PLURAL
Tu, Místico
Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.
Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;
Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.
Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.
Alberto Caeiro
No dia do aniversário de Fernando Pessoa, nada melhor do que um texto seu para reflexão. Este é de Alberto Caeiro, heterônimo, de extrema coerência e de particular lógica, que trata de um tema de sua predileção: a significação.
As palavras são o que significam ou o que interpretam que elas sejam? Se na política nacional há a famosa história do fato e da versão. na vida também temos versões, e não fatos. E na literatura temos interpretações, sempre no plural. Porque são múltiplas as leituras, as ideologias que se aproximam (e se apropriam) do texto, e as interpretações segundo este ou aquele interesse.
Para Nietzsche, interpretação é sempre uma questão de interesse. Seja lá de que ordem for.
Daí ser susceptível de interpretação é deixar de ser, é ser capturado pela leitura alheia, pela alheia versão, pela alheia parcialidade.
Se lembrarmos que parcialidade vem de parte, toda interpretação é a visão de uma parte, visto que o todo sempre nos escapa.
Párea mestre Caeiro, ser não significa, ser é.
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